Peritos dizem que faltam partes de corpos de presos mortos em presídio

Peritos protesto (Foto: Maria Derzi)

Peritos tentaram chamar atenção da ministra Cármen Lúcia, nesta quinta, em Manaus (Foto: Maria Derzi)

Da Redação

MANAUS – Peritos do IML (Instituto Médico Legal) de Manaus disseram que estão com dificuldades em identificar os presos mortos no massacre do Compaj (Complexo Penitenciário Anísio Jobim) porque faltam partes de corpos. “Toda a parte de necropsia já foi feita. Temos problemas porque muitos cadáveres foram decapitados. Estamos tentando fazer a montagem dos corpos. Tem corpos faltando partes que não conseguimos encontrar”, disse o médico legista Cleverson Redivo.

Cleverson era um do grupo de 70 peritos que promoveu manifestação em frente à sede do TJAM (Tribunal de Justiça do Amazonas) na manhã desta quinta-feira, 5. Os peritos aproveitaram a presença da presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), ministra Cármen Lúcia, em Manaus, para protestar contra a “precariedade” do IML e reivindicar benefícios salariais. Eles exibiram faixas e cartazes com frases direcionadas a ministra, que não encontrou com os manifestantes. Cármen Lúcia se reuniu a portas fechadas com presidentes de tribunais da Região Norte para debater medidas de prevenção às rebeliões e mortes nos presídios.

Conforme Redivo, os peritos tiveram que recorrer aos hospitais para obter material para os trabalhos de necropsia dos 56 corpos de presos chacinados. “Não tínhamos nem luvas e nem gases. Foi uma correria para buscar material em hospitais para dar conta do serviço. Não temos planejamento para responder a uma catástrofe desse jeito”, disse.

O protesto, segundo o médico, é para sensibilizar a ministra. “Não existe Justiça sem uma prova material contundente, uma perícia que funcione e dê materialidade para os crimes e processos judiciais”, disse Cleverson. Segundo ele, a dificuldade em identificar corpos também se deve à falta de um cadastro informatizado de presos. “Não temos um cadastro, uma identificação criminal dos presos. Infelizmente, o Estado do Amazonas é largado na identificação criminal. Hoje você consegue fazer a retirada de uma identidade levando apenas um atestado de nascimento, uma certidão. Isso gera uma fraude que nós já denunciamos ao governo. O Instituto de Identificação passa por fraudes recorrentes na emissão de documentos de identidade”, disse.

O médico revelou que, antes do massacre dos presos, o IML já guardava dez corpos sem identificação há mais de três meses. “A identificação vai depender da vontade do governo em fazer as coisas acontecerem de uma forma real. Em 2014 nós tínhamos uma média de 60 homicídios por mês, hoje temos uma média de 85 homicídios por mês. De 2014 para cá nós temos um caos na segurança pública”, disse.

O presidente em exercício do Sindicato dos Peritos Criminais do Amazonas, André Segundo, disse que o governo só consegui materiais para atender a ocorrência devido a visibilidade que a chacina teve em rede nacional. “Tudo aparece quando acontece esses eventos. Estamos aproveitando a vista da ministra para mostrar que tudo isso só aparece quando tem um caso como esse. No dia a dia um cidadão de bem fica de lado”, declarou.

André Segundo disse que a categoria quer ser incluída no rescalonamento da Polícia Civil para obter promoções e aumento salarial. Os peritos foram retirados da classe de policiais, que está com o pagamento da terceira parcela do rescalonamento atrasada. O governo do Estado já avisou que o pagamento depende do aumento da receita fiscal e de repasses federais, o que só deve ocorrer no segundo semestre deste ano.

Consultada sobre a reivindicação e denúncia de precariedade no IML, a Polícia Civil do Amazonas não se manifestou.

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