Ouro na cicatriz

Contam que um abastado líder feudal japonês queria reparar alguns objetos de estimação. A lenda não detalha por que as peças eram tão valiosas para ele e nem a razão delas precisarem de restauro.  Os utensílios teriam sido quebrados durante uma acalorada discussão amorosa?

O fato é que o xogum (título militar que significa grande general apaziguador de bárbaros) quis contrariar a frase sempre dita a respeito de objetos fragmentados e também sobre rompimentos de relacionamentos afetivos: “Uma vez quebrado, não há mais conserto”.

Para isso, o poderoso ignorou os conselhos de substituir os artigos danificados comprando novas unidades e contratou os famosos serviços de restauradores chineses. O resultado não o agradou e ele requisitou outros especialistas. Todas as seguidas tentativas, porém, foram malsucedidas. Apesar do esforço dos profissionais, continuavam visíveis as rachaduras das amostras.

Após gastar muito dinheiro procurando a solução longe, o líder japonês resolveu conversar com os monges de um templo vizinho da casa dele. Os monges nunca haviam trabalhado com restaurações, mas aceitaram o desafio.

No trabalho, os religiosos resolveram aplicar os conceitos da filosofia que professavam e acabaram fazendo o oposto dos especialistas. Em vez de empenharem-se em esconder os defeitos das peças, os monges buscaram destacar e valorizar as marcas de desgaste, as imperfeições, as trincas e fendimentos. Foi assim que foi criada a arte do kintsukuroi ou kintsugi: reparo com ouro (ou outros metais preciosos) de objetos em cerâmica quebrados.

Tudo baseado na ideia de entender as possibilidades que advêm das perdas e de compreensão que o aperfeiçoamento pode vir do sofrimento e do desgaste. Da destruição pode vir a melhoria, a reparação, o “renascimento”.

As peças reparadas com kintsugi valorizaram-se tanto e agradaram tanto aos colecionadores que muitos deles foram acusados de deliberadamente esmagarem cerâmicas valiosas para que pudessem ser reparadas com as costuras de ouro.

Em todo o mundo não houve time que mais teve de lidar com a necessidade de restauração que a Chapecoense. Na semana passada (29 de novembro), completou-se o primeiro aniversário do acidente que matou 71 pessoas, justamente quando o time catarinense iria disputar o título mais importante da sua história: a final da Copa Sul-Americana.

Por ter que remontar todo o seu elenco, chegou-se a sugerir uma espécie de anistia para a Chapecoense. Durante um período, de um até três anos, o clube não poderia ser rebaixado para a segunda divisão. Os dirigentes de Chapecó, porém, entenderam que essa medida, apesar de defensável, não era de reparo que o clube precisava.

A alteração dos resultados gerados dentro do campo nunca fez bem ao futebol e para a Chapecoense representaria um conserto em que se tenta esconder as manchas e imperfeições. Era importante para o clube fazer um restauro do tipo kintsugi: abraçar seus fendimentos e rachaduras entendendo que as incorreções é que tornam únicas cada história.

Na última rodada do Brasileirão, veio a recompensa: a Chapecoense não apenas conseguiu se manter na elite do futebol nacional, mas também conquistou uma vaga para disputar a próxima edição da Libertadores. Assim, ficou visível “o ouro nas cicatrizes”.

A ideia de aceitar a imperfeição e enxergar beleza e valor nas rachaduras e cicatrizes foi bem resumida pelo escritor Ernest Hemingway, no livro ‘Adeus às armas’: “O mundo quebra a todos; no entanto, mais tarde, muitos tornam-se mais fortes, justamente nos pontos onde foram quebrados”.

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