O ringue de Amadeu Teixeira

A primeira pessoa que eu entrevistei foi Amadeu Teixeira (30 de junho de 1926 – 7 de novembro de 2017). Acho que foi em 1998. Era um trabalho do curso de jornalismo e achei que seria interessante conversar e escrever sobre o amazonense cujo o rumor era de que seu nome estaria no ‘Livro dos Recordes’, o Guinness Book, por ser o treinador que dirigiu o mesmo time por mais tempo.

Consegui o número da casa dele, liguei de um ‘orelhão’, com a preocupação de que não fossem necessárias muitas fichas para ele aceitar ser objeto de tarefa de um estudante.

Seu Amadeu achou melhor que a entrevista fosse pela manhã (horário das minhas aulas) e na residência dele, localizada no bairro Parque Dez de novembro.

Lá, ele me recepcionou e pediu que eu confirmasse que não era profissional e também garantisse que o conteúdo da entrevista não iria aparecer depois em algum jornal local (acho que agora não tem problema).  Após, a aparente desconfiança inicial, Seu Amadeu partilhou mais de uma hora de seu tempo para pacientemente atender um estudante e falar com sinceridade e uma certa indignação sobre os assuntos abordados.

A minha ideia era que a conversa fosse sobre a vida e a carreira profissional dele. Seu Amadeu, porém, queria mesmo era falar sobre o futebol amazonense. Eram mais que desabafos. Amadeu fez um profundo diagnóstico de tudo que considerava errado no esporte local, incluindo relatos de injustiças que militantes de times pequenos eram obrigados a enfrentar.

Foi a primeira vez que vi alguém falando com tanta contundência sobre o lado feio e sujo do futebol. Seria aquela conversa um alerta? Do tipo: observa bem o que você vai ter que lidar se quiser fazer jornalismo esportivo. Rapaz, o futebol não é só a alegria do gol!

Quando fui escrever a matéria, achei que demonstraria criatividade construindo o texto de um ícone do futebol usando metáforas, referências e termos do pugilismo. O detalhe é que o entrevistado não falou nada sobre boxe.

Na correção, o professor não enxergou nenhuma engenhosidade ou mérito na ideia. Ao contrário, achou que todo aquele conteúdo de pugilato no texto da entrevista era ‘nariz de cera’. Desnecessário.

Hoje, com a morte recente de Amadeu Teixeira, não me é difícil entender porque inconscientemente escolhi o boxe e porque me veio a imagem de um boxeador. Certamente, Amadeu não era aquele tipo de pugilista que acumulava cinturões e ganhava os combates por nocaute e nos primeiros rounds.

Seu Amadeu era aquele tipo de lutador resistente. O que aguentava pancadas sempre se recusando a tombar. Imagine a tenacidade e obstinação de alguém que incube a si mesmo a missão de ser técnico e faz tudo de um time pequeno do Amazonas por mais de 50 anos. Além da persistência e esperança, o que mais se exigiu de Amadeu para que ele dirigisse o time do América de 1955 a 2008?

Como é viver sem poder ‘jogar a culpa’ na gestão anterior? Com tudo o que ele viu acontecer ao longo do tempo, o que dizer para se motivar a cada ano? O que falar para si mesmo a cada dia?

Amadeu ganhou o Campeonato Amazonense de 1994. Também teve o alento de ter sua teimosia e dedicação reconhecida ainda em vida. Virou nome de ginásio.

Mas, agora quem vai assumir suas luvas e ranzinzamente lutar pela melhora do futebol amazonense?

Enquanto isso, a vida fica cada vez mais parecida com uma renhida e injusta luta de boxe. E parece que só o que nos cabe é encontrar um banquinho no canto do ringue, que é pra descansar e respirar um pouco entre um ‘assalto’ e outro, e enquanto a próxima pancada não chega.

 

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