‘O Poder precisa controlar o Poder’

A prática comum de confundir o bem público como extensão da propriedade particular está na raiz dos problemas que não acabam nem ficam poucos, apenas mudam de formato. Não basta investigar, julgar e prender, para resolver a questão. O País precisa revisar-se por inteiro se quiser adentrar na galeria das nações respeitadas. Sem uma reestruturação de valores, que começa no espaço familiar e, posteriormente, escolar, social, institucional e público, teremos de ampliar delegacias, tribunais e presídios e fazer do investimento público a gastança em Segurança Pública. Todos sabem do problema e o repudiam nas manifestações públicas, na hora em que todos nós vestimos a toga de magistrados como fariseus arrependidos. Assim procedendo, apenas expandiremos as metástases da oncologia política e social.

Uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pelo Ibope, divulgada na revista Exame, com 2002 pessoas em 141 municípios, mostra que oitenta por cento percebem a relação entre burocracia e corrupção e por isso, têm uma visão negativa da burocracia. Como consequência disso, para a maioria (77%), o excesso de burocracia aumenta os preços dos produtos e serviços, dificulta o crescimento do País (73%) e desestimula os negócios (73%). Um exemplo do que acontece na relação burocracia x corrupção, em que pese não termos estrada teremos de pagar tarifas absurdas de frete para sanar a ferida da Petrobras, em que foi desviado um oceano de recursos oriundos de corrupção para fraudar licitações.

Quase um terço da população acredita que o Brasil é mais burocrático que o resto do mundo – e 68% da população acreditam que o governo deveria eleger o combate à burocracia como uma das prioridades. Para 73% dos entrevistados, o excesso de procedimentos estimula a corrupção, 72% acreditam que incentiva a informalidade e 72% dizem que faz o governo gastar mais do que o necessário. Eis o esplendor da sabedoria popular. E quem fornece para o Poder Público sabe muito bem disso. O fornecedor de produtos ou serviços tem de aumentar o preço de seus produtos ou executá-los com qualidade reduzida para cobrir o que, elegantemente, se tem  chamado de “CUSTO POLÍTICO”. Quem quiser receber o que lhe é devido pelo Poder Público enfrentará uma via crucis produzida pela burocracia conveniente, que, muitas vezes, busca vender dificuldade para fazer facilidade. Essa burocracia é agravada hoje pelo medo dos gestores, ordenadores de despesa, que dão preferência à postergação de atos para não incorrerem em qualquer modalidade de improbidade administrativa. Se perdurar essa situação, a máquina estatal irá parar.

Se você quiser fazer uma doação, distribuir direitos de herança, aposentar-se no INSS, encerrar uma empresa, requerer benefícios legítimos… prepare-se. O calvário espera-o, e o Simão Cirineu, aquele que ajudou Jesus na caminhada do Calvário, vai lhe custar-lhe muito ou, então sente, reze e aguarde. Quanto mais remediado financeiramente for o cidadão, maior a percepção de que o país é muito burocrático. Quem tem renda familiar acima de dez salários mínimos pode estar certo de que seu nome está marcado com cores do deleite burocrático para ser extorquido. Que os bons servidores não tomem para si os maus feitos de alguns gestores públicos. A questão da corrupção no Brasil é de forma clara tratada no artigo de Wagner Siqueira, Presidente do Conselho Federal de Administração, publicado pelo Jornal francês “Le Mond” Diplomatique Brasil “Em verdade, o pressuposto democrático, no Brasil, foi absorvido pela ganância hiperindividualista do homem público. Ao contrário de prover a sociedade em suas necessidades pétreas, o Estado passou a retirar, reiteradamente, os únicos meios à viabilização de uma administração pública eficiente, com foco, gestão e resultados. A esse fato, Lipovetsky sacramenta que o Estado deve superar os interesses de categorias isoladas para preparar o futuro, os cuidados das urgências atuais precisam estar alinhados com as metas de longo prazo. A ação pública honra-se com o trabalho presente em prol do futuro. É um jogo entre o respeito da sociedade civil e, ao mesmo tempo, da sua autonomia”.

Ou passamos o País a limpo ou permaneceremos, eternamente, reféns dessa burocracia, de onde emana a corrupção.

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