O custo imoral da política

Estima-se que no Brasil existam 65 mil políticos eleitos pela vontade soberana da população. Além do belíssimo contracheque, eles têm direito a atendimento médico ilimitado, passagens aéreas, carro alugado, combustível, conta de telefone paga pelo Estado e auxílio-moradia. Numa comparação entre os benefícios garantidos aos deputados e os direitos assegurados aos cidadãos comuns, é fácil constatar que a situação de quem tem mandato no Congresso contrasta com a realidade dos brasileiros que eles representam.

Somente o Congresso Nacional, segundo o site Contas Abertas, custou R$ 28 milhões por dia no ano de 2017, ou seja, R$ 10,22 bilhões, para regozijo perdulário de seus 81 senadores e 513 deputados e para muitos deles fazerem o que as manchetes policiais dos jornais descrevem para escárnio geral. Na comparação, o orçamento para Pesquisa e Desenvolvimento, que engloba todas as universidades federais, instituições de pesquisa do país inteiro, de onde saem respostas para a saúde, para o desenvolvimento e para o crescimento do Brasil em todas as direções, será de R$ 2,8 bilhões.

Esse orçamento, há três anos, não para de cair: era R$ 8,4 bilhões, passou para R$ 5,2 bi e, neste ano, chegou a hora do “salve-se quem puder”. Somente em Emendas Parlamentares foram mais R$ 4,2 bilhões. Que país é este, onde setenta por cento da população são das classes C, D e E e 42 milhões de pessoas dependem do Bolsa-Família para sobreviver? Há fatos muito podres sob o fascinante céu do Brasil!

Os gastos diários do Congresso dariam para construir seis escolas de tempo integral. É o segundo custo mundial com o Congresso Parlamentar e que só perde para os Estados Unidos. E o mais grave: As investigações policiais revelam cifras monumentais de desvio das verbas públicas a envolverem a classe política. Acrescente-se a isso o fato de, na apuração de crimes, estarem as impressões digitais de todos nós, eleitores, porque nós os colocamos na cadeira para cometerem os ilícitos.

No Brasil de José Bonifácio, sob a coroa monarquista, os deputados não recebiam para trabalhar. Pelo contrário, era necessário comprovar renda anual acima 800 mil réis para ser candidato assim como os eleitores também precisavam comprovar seus ganhos para poderem escolher seus representantes. O chamado “voto censitário” era uma ferramenta para manter a política na mão de poucos e longe de grupos indesejáveis, como a grande população escrava e as mulheres. Os salários para políticos só chegaram com a República, no final do século XIX.

Cabe lembrar que nós, cidadãos, temos de demonstrar com detalhes tanto a origem de nossos recursos, quanto somos taxados em até 35% pela compulsão fiscal da Receita, enquanto a classe política, sequer, presta contas de seus tesouros. Que país é este e por que nós insistimos em virar as costas para tanta imoralidade na hora solitária do voto democrático?

Temos de acirrar esse debate, temos de falar sobre isso e ouvir outras opiniões em todos os agrupamentos e redes sociais. Na feira, no clube, na fila do Banco, na porta das escolas, com nossos filhos e demais familiares. Chega de nos contentarmos com a crítica feita pelas novelas, formatada para todos nós nos considerarmos cidadãos conscientes. A decisão da mudança começa dentro de casa, nos corações e mentes das pessoas, notadamente para quem não integra o banquete da gastança nababesca.

Não basta fazer festa com esta ou aquela prisão. Contentar-nos com isso significa anistiar nossa participação nos ilícitos. Não podemos lavar as mãos no sangue da hipocrisia, mas sim, olhar no espelho da sinceridade e fazer o ato de arrependimento, do qual depende a mudança de um país transparente e justo.

Seja o primeiro a comentar on "O custo imoral da política"

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.