O Brasil que precisa ser abandonado…

O número de brasileiros que abandonou sua pátria para viver em outro país cresceu 165% nos últimos sete anos. Em 2011, 8,1 mil declarações foram entregues à Receita Federal. Em 2017, este número dobrou, porque 21,7 mil brasileiros deixaram o país por muitos motivos, como crise econômica, violência, falta de perspectivas. Desencanto geral. Trícia Tadros, parceira cotidiana de tantas lutas, traduziu essa amargura, com destaques aos vínculos quebrados: “Nas amizades, levadas daqui por essa crise que o Brasil vive… Sábado à noite e eu aqui com saudade… Saudade das amizades que desistiram do Brasil. Amigos de uma vida inteira que não partiram para sempre, como outros, mas que também deixam um vazio enorme. Gente que foi morar na Flórida, na Alemanha, em Portugal, na Espanha… Cada um que parte leva consigo parte das memórias mais doces…Agora, meus filhos também começam a se despedir dos amigos. A cada semana, uma partida… Triste… Todos pessoas capacitadíssimas e sem oportunidades na sua pátria. Vai chegar um tempo em que o maior produto de exportação do Brasil serão suas mentes: mentes brilhantes”.

Sem entrar no mérito de cada escolha, cabe-nos refletir sobre o alcance ou a viabilidade do verbo permanecer. Que sentido pátrio ainda poderia ser dado ao bordão do Hino Nacional “verás que um filho teu não foge à luta” com tantos problemas a lamentar e a empurrar muitas pessoas para o autoexílio? Ou refletindo de outra maneira: Que motivos podemos reunir para dar sentido à luta que os idealistas chamariam de reconstrução nacional?  Temos de reconhecer, de todo modo, que ainda vão demorar séculos para esta civilização desmontar as fronteiras que separam as nações, todas elas tomadas por um conceito separatista de identidade nacional, segundo o qual quem não nasceu no país é apenas um estrangeiro. Ou, num pior cenário, de um refugiado. E será assim que nossos amigos e familiares serão tratados onde resolvam viver. Lamentavelmente!

Por que permanecer aqui? Em que podemos acreditar ou que tarefas podemos empreender para, com comprometimento e trabalho, entender por que chegamos até aqui em condições tão adversas e quais os caminhos que nos compete retomar? Todos nós somos obrigados a concordar que, seja qual for o problema, temos de conhecer sua extensão, origens e fundamentos para encontrar a solução. Certamente, o melhor caminho é perguntar sempre a si mesmo: Qual a minha contribuição pessoal para que a vida esteja assim? Isso vale para as relações pessoais e profissionais deterioradas, para o tipo de tratamento dispensado aos nossos filhos, para os cuidados com a família, com a educação, com a vida espiritual, com as escolhas feitas, em todos os níveis, inclusive com as representações políticas, das quais tanto nos queixamos. Por que insistimos em apontar dedos em todas as direções em busca dos culpados? Por que achamos sempre que o inferno são os outros e esquecemos que para eles os outros somos nós?

Por que o Brasil está ficando para trás? E de que Brasil estamos falando, se não daquele que habita em cada um de nós? O dedo apontado para este país, que deve ser abandonado, tem outros três apontados para o acusador. E a eles podemos dar alguns nomes, como egoísmo, comodismo, arrogância, que nos permitiriam compreender como tudo pode começar a partir de mim, não no sentido da arrogância, mas na certeza de que tudo pode mudar se o universo do Brasil, em mim existente, decidir ser uma pessoa melhor, abandonar as velhas práticas da preguiça emocional, da falta de compromisso com o outro, do jeitinho fácil. Eis por que as pessoas se identificam com as opções políticas totalitárias, por pensarem apenas no próprio umbigo, omissas em assumir os próprios destinos e, assim, transferem a quem promete, como Messias, fazer o que nos compete. Este, sim, é o país que precisa ser abandonado, sem bilhete de volta…

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