Não minta no currículo

Uns ‘exageros’ em um curriculum vitae ajudaram a mudar o resultado do maior prêmio do jornalismo mundial. Uma história que envolve drogas, ‘fake news’, defesa do genial Gabriel Garcia Márquez e que vai completar este mês 37 anos.

Houve uma época em que jovens sonhavam em ‘mudar o mundo’ atuando no jornalismo. Para esses idealistas dos anos 70 e 80, o emprego mais cobiçado era o de repórter do Washington Post. Especialmente porque foi esse jornal, situado a alguns quarteirões da Casa Branca, que apurou o escândalo Watergate e, em consequência, obrigou Richard Nixon a renunciar ao do posto de homem mais poderoso do mundo.

Para trabalhar no Post, Janet Leslie Cooke (nascida em 23 de julho de 1954 em Toledo, Ohio) mandou seu currículo para Benjamin Bradlee, o aclamado editor executivo do jornal. Em seu currículo, Janet Cooke disse que era membro da irmandade Phi Beta Kappa, tinha mestrado em jornalismo pela Universidade de Toledo, tinha um diploma magna cum laude da Universidade de Vassar, era poliglota e havia ganhado prêmios de reportagens pelo Toledo Blade, jornal em que estava trabalhando. Ela ainda informou que era integrante da Associação Americana de Jornalistas Negros.

Bradlee ordenou que Cooke fosse imediatamente contratada porque, além das suas alegadas credenciais profissionais, o periódico também estava interessado em aumentar o número de mulheres e de negros na redação.

O dia 3 de janeiro de 1980 foi o primeiro dia de trabalho de Cooke. Ela chamou atenção por ter chegado com duas horas de atraso (ela disse que se perdeu) e também por usar um terno vermelho de lã, uma camisa de seda branca e uma saia plissada considerada muito curta.

Em nove meses no jornal, Cooke foi uma repórter dedicada e assinou 52 matérias especiais. Nenhuma delas seria mais comentada que ‘O Mundo de Jimmy’, manchete do jornal em 28 de setembro de 1980. O trecho inicial era aterrador: “Jimmy tem 8 anos e é um viciado em heroína da terceira geração. Um rapazinho precoce com cabelos castanho-claros, olhos castanhos aveludados e marcas de agulha pontilhando a pele lisa de seus finos braços pardos. (…) Há uma expressão quase angelical no pequeno e redondo rosto de Jimmy quando ele fala sobre a vida – roupas, dinheiro, o [time de beisebol] Baltimore Orioles e heroína. Ele é viciado desde os 5 anos”.

A história chocou o mundo. As pessoas exigiam saber o paradeiro da criança viciada em heroína, mas Cooke recusou. Ela disse que se ela desse a sua localização, a vida dela e da criança estaria em perigo por causa dos traficantes vizinhos do menino. A cidade de Washington, onde se dizia que Jimmy morava, começou a oferecer vultosas recompensas para quem encontrasse Jimmy.

A prefeitura foi pressionada a dizer que Jimmy foi achado e estava recebendo tratamento em um hospital. Dias depois houve ainda o boato de que Jimmy estava morto.

Na Inglaterra, por ordem da juíza Sylvia Bacon, Mary Thompson perdeu a guarda de seu filho de cinco anos porque os policiais suspeitaram que o menino era outro exemplo de criança viciada. “Eu não dei drogas ao meu filho. Isto é ridículo. Por causa do Jimmy, eles estão contra mim”. Seis semanas depois (16/01/81), a sentença foi revogada por falta de provas.

O dia 13 de abril de 1981 tinha de tudo para ser o mais feliz da vida de Janet Cooke: ela conquistou um Pulitzer. Ela ganhou-o depois que o comitê de premiação, entusiasmado com a qualidade da reportagem e a possibilidade de conceder o primeiro Pulitzer de jornalismo para uma mulher negra mudou a matéria da categoria de Notícias Locais para a de Reportagem Especial (Featuring-writing) para garantir-lhe o galardão.

Agências de notícias fizeram matérias sobre a vencedora e usaram informações do currículo de Cooke. Na tarde daquele mesmo dia, o Toledo Blade pediu para corrigir o dado de que ela havia ganho prêmios pelo jornal, o que nunca aconteceu. Outras informações começaram a ser checadas e se descobriu que Cooke havia frequentado Vassar apenas no primeiro ano e tinha somente um diploma de bacharel em língua inglesa e artes pela Universidade de Toledo.

Bradlee começou a interrogá-la em francês e a redação descobriu que também era uma inverdade que Janet era fluente no idioma. Se ela tinha mentido no currículo? Teria também inventado a história de Jimmy? Cooke continuava a garantir que não.
A ordem foi para ela mostrar para os editores onde o garoto viciado morava. Depois de algum tempo circulando pela parte sudeste e pobre da cidade, ficou claro que ela não sabia o paradeiro da criança. Até que à 1h45, após 11 horas de pressão, Cooke enfim fez o mesmo que alguns atletas medalhistas flagrados no doping: confessou. “Não há Jimmy e não há família. Foi uma fabricação. Eu quero devolver o Pulitzer”.

No artigo ‘Quem acredita em Janet Cooke?’, o escritor colombiano Gabriel García Márquez argumentou: “Bem, não seria justo que você recebesse o Prêmio Pulitzer pelo jornalismo, mas sim seria uma maior injustiça que você não receba o Prêmio Nobel de Literatura”.

Cooke alegou que, como não conseguiu encontrar a criança viciada e devido à pressão de seus chefes, acabou inventando Jimmy, no melhor estilo da frase de Mário Quintana: “A mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”.

O fato é que Cooke foi o início do abalo da credibilidade da imprensa. Ela é tema nas faculdades de jornalismo dos EUA e um permanente lembrete do ditado: “A mentira nunca vive o suficiente para envelhecer”.

Há, entretanto, os que acreditam que nem todas as mentiras são descobertas. Algumas são gigantescas e envolvem crimes nunca punidos. Outras são pequenas e diárias como os sorrisos e a resposta afirmativa para a pergunta: “Está tudo bem?”

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