Mulheres Revolucionárias

Em outubro se comemora o primeiro centenário da Revolução Russa, fato importante da história moderna com grande impacto nos rumos políticos do mundo inteiro. No processo revolucionário houve grande participação das mulheres que continuaram a revolução, mesmo depois de outubro de 1917, fazendo a diferença nos cargos políticos e na condução das mudanças profundas na sociedade moderna.

Para muitos autores que estudam as grandes revoluções da história moderna, como Graziela Schneider, autora do livro A Revolução das Mulheres: Emancipação feminina na Rússia soviética, publicado neste ano pela editora Boitempo, “as mulheres foram as grandes protagonistas da Revolução Russa”. Entretanto, “se tornaram invisíveis para a História”, afirma a autora.

Dentre as principais lideranças populares que atuavam na área da educação, da organização dos camponeses e operários no processo revolucionário, destacaram-se Alexandra Mikhaylovna Kollontai, Nadiéjda Krúpskaia, Inessa Armand, Elena Dimítrievna Stássova, Klavdia Nikolaeva e tantas outras mulheres que conduziram importantes processos de mudanças radicais na sociedade no início do século passado.

Sem desmerecer nenhuma delas, destacamos a figura pouco conhecida da jovem Alexandra Kollontai, a primeira mulher a assumir um ministério na história política moderna. No campo das políticas públicas ela imprimiu a luta pela equiparação de salários entre homens e mulheres e fez frente ao autoritarismo e ao machismo que ainda permaneciam nas práticas políticas de sua época.

Seu Ministério da Assistência Pública ocupou-se especialmente das questões relacionadas aos direitos das mulheres camponesas e operárias que lutavam pelo acesso aos benefícios sociais, pelo reconhecimento da função social da maternidade, por creches urbanas e rurais. Tais políticas públicas conferiram à então ministra o título de ‘mulher para além do seu tempo’.

Formada em Economia, é autora de uma vasta obra na área da ciência política e dos direitos das mulheres. Sua formação acadêmica e sua trajetória teórica podem ser observadas nos fragmentos de seu célebre discurso de abertura dos trabalhos frente ao ministério da Assistência Pública, em 1918.

Em seu discurso, Kollontai deixa clara sua opção e militância pela causa das mulheres pautando-se na luta por direitos iguais e, de maneira especial, pela divisão do trabalho doméstico entre homens e mulheres. Enfatiza o papel dos pais no cuidado dos filhos com a finalidade de liberar as mulheres para a vida pública em igualdade de direitos com os homens.

Outro aspecto importante de sua obra é a necessária luta de toda a sociedade pela superação do histórico de dominação das mulheres.  Kollontai compreendia que a sociedade precisava primeiramente reconhecer que submeteu a mulher a diversos processos de dominação até coloca-la à “sombra do homem”. Uma vez reconhecida a estratégia de dominação nas relações de poder entre homens e mulheres, a sociedade é convocada a dar um passo adiante e romper com a relação de dependência e servidão a que submeteu as mulheres por um longo período histórico.

Kollontai rompe com o determinismo histórico da subjugação da mulher. Reconhece que houve um processo histórico de sujeição que precisava ser interrompido. Trata-se de paradigmas a serem desconstruídos por toda a sociedade e não isoladamente pelas mulheres.

Inscreve definitivamente o lugar da mulher na sociedade em condição de igualdade com os homens em todos os níveis mantendo-se apenas as diferenças de gênero masculino e feminino que deveriam ser reconhecidas e respeitadas tanto pelos homens quanto pelas mulheres. No entendimento de Kollontai as relações de dominação não podem ser toleradas nem permitidas em nenhuma relação, seja de classe ou gênero. A libertação da dominação é o primeiro passo para grandes mudanças em qualquer sociedade.

Para Alexandra Kollontai a legislação é importante, mas não é suficiente para a igualdade de direitos entre homens e mulheres. A então Ministra de Estado reconhece a importância das novas leis que garantem e equiparam a mulher em direitos. “Mas, a realidade ainda não a libertou”! Conclama Kollontai. “As operárias e camponesas continuam sujeitas ao trabalho doméstico como escravas da própria família”. Afirma a ministra ao analisar que o ingresso das mulheres no mundo do trabalho fabril, atribuiu-lhes uma dupla jornada de trabalho.

Kollontai sugeria que se as responsabilidades domésticas fossem divididas com os maridos e com todas as demais pessoas que compartilhavam do mesmo lar (especialmente os filhos adolescentes e jovens), as tarefas domésticas deixariam de representar um peso somente nas costas das mulheres. A então ministra oferece as bases teóricas para a criação da categoria do trabalho doméstico, no cuidado da casa e outra para o cuidado das crianças. É uma das primeiras autoras a escrever sobre a legislação dos direitos trabalhistas do emprego doméstico que, no Brasil, somente cem anos mais tarde, entrou em vigor com a promulgação da Lei complementar 150 de 01 de junho de 2015 que estabeleceu direitos e deveres trabalhistas para o emprego doméstico.

Muitas outras questões poderiam ser consideradas a respeito da importante participação das mulheres nos cenários políticos, econômicos, sociais, históricos e culturais mundiais. Alexandra Kollontai é apenas uma, dentre milhares de mulheres que fizeram e continuam fazendo história. A todas elas nosso respeito e admiração na continuidade de sua luta que também e nossa!

 

Seja o primeiro a comentar on "Mulheres Revolucionárias"

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.