Mulher, negra, pobre e mãe

Neste ano a maior devoção popular do Brasil completa trezentos anos e nos traz grandes lições. Em 12 de outubro de 1717, num contexto marcado pela escravidão, exploração e expropriação da colonização portuguesa, um grupo de pescadores se depara com a imagem de uma mulher negra nas águas do rio Paraíba no estado de São Paulo.

Conta a tradição, que não pescavam por livre vontade, senão pela imposição da comarca local de Guaratinguetá que queria agradar ao Conde de Assumar, representante da Coroa Portuguesa em passagem pelo local, com uma grande festa. Os pescadores não podiam retornar sem a encomenda e a temporada de pesca não lhes era propícia. Depois de inúmeros tentativas, na rede aparece uma imagem de um corpo de mulher. Em seguida, pescaram a cabeça da imagem. Era uma mulher negra. Na sequência, pescaram muitos peixes e se livraram das represálias dos patrões da Coroa.

Os pescadores levam para casa aquela imagem de uma mulher negra e simples que logo em seguida passa a ser chamada de mãe. Uma mãe sem nome. Chamaram-lhe Aparecida porque ‘apareceu’ nas águas. Conta a tradição que a vila de pescadores guardou a imagem numa casa simples. Logo o fato foi ganhando contornos e iniciava a grande devoção popular à mãe negra de Aparecida que peregrinava de casa em casa reunindo pequenos grupos de reflexão que, para além da oração comunitária, realizavam rodas de conversas sobre a situação de escravidão e as diversas formas de opressão das classes populares do Brasil. Aos poucos, os pequenos grupos foram se organizando e criando estratégias de resistência até oficializar institucionalmente a libertação proclamada pela Lei Áurea em 13 de maio de 1888.

A manifestação de fé popular a Aparecida permaneceu quase clandestina, não reconhecida pela igreja oficial até 1930 quando o Papa Pio XI decreta Nossa Senhora da Conceição Aparecida como Rainha e Padroeira do Brasil no dia 16 de julho.

Anos mais tarde foi a vez do Estado se apropriar da devoção já com grandes contornos na expressão popular do Brasil.  A Lei Federal nº 6.802, de 30 de junho de 1980, em pleno período de ditadura militar, decreta oficialmente o dia 12 de outubro como feriado nacional, dia de devoção à santa. Esta Lei Federal também reconhece Maria como sendo a protetora do Brasil.

Em Aparecida, a fé católica faz uma releitura dos padrões impostos à mãe de Jesus. Fora do controle da Igreja institucional, Aparecida surge às margens da sociedade e permanece junto com o povo marginalizado. Torna-se uma referência de fé para o povo mais pobre. Não necessariamente católico, como declara os recortes dos versos da canção popular intitulada romaria, de composição de Renato Teixeira, cantada por Elis Regina na década de 1980:

[…] Me disseram, porém, que eu viesse aqui
Pra pedir em romaria e prece, paz nos desaventos.
Como eu não sei rezar, só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar

Sou caipira Pirapora, nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida
Sou caipira Pirapora nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida

No campo das lutas políticas, no contexto da escravidão oficializada no Brasil, Aparecida passou a representar uma importante resistência na luta de homens e mulheres contra a escravidão. A imagem de mulher negra e pobre tornou-se uma referência nas lutas e resistências por reconhecimento das mulheres negras, pobres, migrantes, indígenas e latino-americanas, no enfrentamento a todas as formas de opressão de gênero, raça e de classe social. Confirma a luta permanente contra o machismo, sexismo, racismo e outras formas de discriminação e violência praticadas contra as mulheres e contra toda a sociedade.

 

1 Comentário on "Mulher, negra, pobre e mãe"

  1. Excelente texto com informações precisas e de fácil entendimento!

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