Major denuncia corrupção na PM para favorecer crime ambiental

Equipe do Batalhão Ambiental apreendeu cerca de uma tonelada de carne de animais silvestres, no último dia 9, na barreira montada próximo à Ponte Rio Negro (Foto: Divulgação)

Equipe do Batalhão Ambiental apreendeu cerca de uma tonelada de carne de animais silvestres, no último dia 9, na barreira montada próximo à Ponte Rio Negro (Foto: Divulgação)

Valmir Lima, da Redação

MANAUS – O ex-comandante do Batalhão Ambiental da Polícia Militar, major Wilmar Tabaiares da Silva Neto, exonerado na última segunda-feira do cargo, denunciou, nesta terça-feira (12/08), na rede social Facebook, um esquema de corrupção na Polícia Militar do Amazonas para favorecer madeireiros que atuam de forma ilegal em municípios da Região Metropolitana de Manaus e pessoas que transportam animais silvestres mortos pela rodovia AM-070.

Na postagem, o major da PM afirma que estava sendo pressionado a deixar a passagem livre na rodovia para o que ele chama de “uma verdadeira organização criminosa”. Segundo o major Wilmar Tabaiares, a exoneração dele ocorreu depois que a equipe dele apreendeu quase uma tonelada de carne de caça ilegal e de ter apreendido em flagrante um madeireiro por corrupção ativa.

Junto com o major, também foi exonerado o sargento Souza Andrade, um dos soldados mais atuante no Batalhão Ambiental e que comandava a equipe que fez a maior parte das operações que resultaram em apreensões de madeira e carne de animais silvestres nos últimos meses no Amazonas.

O major afirma que a AM-070 (que liga Manaus aos municípios de Iranduba, Manacapuru e Novo Airão) é a rodovia por onde escoa o maior volume de madeira ilegal, carne de animais silvestres e drogas. Por pressão dos criminosos, a Polícia Militar desmontou a barreira do Batalhão Ambiental próximo à Ponte Rio Negro, no lado de Iranduba, e afastou os militares que atuavam na fiscalização. “Os madeireiros não conseguiam passar… Todos os dias recebia informe de tentativa de suborno dos PMs… Muitos interesses estavam em jogo… Haviam vários caminhões carregados de madeira ‘abandonados’ e queriam passar a qualquer preço… Não cedi à corrupção… Mas a ordem veio pra abandonar todo tipo de policiamento na dita estrada e proibir a tropa de sair pra patrulhar!!!” escreveu Wilmar Tabaiares na rede social.

Oficial confirma

A reportagem do ATUAL conversou com o major Tabaiares na noite desta terça-feira, depois de ele fazer a postagem. Ele confirmou as informações e disse mais: o comando da Polícia Militar chegou a mandar prender a equipe de fiscalização para impedir que eles realizassem as abordagens aos caminhões que trafegam pela rodovia.

O major Wilmar Tabaiares assumiu o comando do Batalhão Ambiental em fevereiro deste ano e, desde março, passou a realizar uma fiscalização mais rigorosa na rodovia AM-070. No período em que ficou à frente do batalhão, “algumas toneladas de carnes de caça e milhares de metros cúbicos de madeira” foram apreendidos pelo grupamento.

Mas o major afirma que as lanchas e carros usados pelo Batalhão Ambiental estavam sucateados e eles estavam comprando peças com dinheiro do próprio bolso para botar a frota para funcionar. “Nós não aguentamos mais pagar o conserto das viaturas e das lanchas e decidimos montar uma barreira na Ponte Rio Negro”, disse Tabaiares. A barreira foi montada há cerca de 15 dias e incomodou os criminosos.

Subcomandante ordena

Na semana passada, Tabaiares disse que recebeu um telefonema do subcomandante-geral da PM, coronel Eliézio Almeida, determinando que a barreira fosse desmontada. “Nós decidimos cumprir a determinação, apesar de achar absurda, mas íamos fazer patrulhamento com as viaturas ao longo das estradas. No entanto, veio outra ordem para que eu recolhesse todos os soldados no quartel e deixasse de fiscalizar”, disse o major. Como a equipe se recusou ao recolhimento ao quartel, foi enviada uma ordem para prender Wilmar Tabaiares e seus subordinados. “Eu disse para o coronel enviado para me prender que ele podia me algemar que eu iria preso e ele continuaria meu amigo, porque entendia que ele estava cumprindo ordens”, disse.

A prisão não chegou a ser consumada, mas nesta segunda-feira, Tabaiares foi surpreendido com a exoneração do caargo, publicada no Boletim Geral da Polícia Militar, que circula internamente nos quartéis da PM. Agora ele está no que na PM chamam de “corredor”, quando um oficial fica no Comando Geral, sem função.

Na postagem, o major afirma não acreditar que a ordem para suspender o patrulhamento na rodovia tenha partido do governador José Melo (leia a íntegra da postagem abaixo).

Versão do comando-geral

O comandante-geral da PM, coronel Almir David, disse à reportagem que foi aberto um procedimento para apurar as denúncias feitas pelo major Wilmar Tabaiares. Segundo David, houve o pedido do coronel Eliézio para que fossem suspensas as fiscalizações nas proximidades da Ponte Rio Negro porque estava havendo operações em duplicidade na via (de fiscalização de trânsito e de fiscalização do Batalhão Ambiental). “Não houve a intenção de tirá-lo para impedir a ação do Batalhão Ambiental. Se fizéssemos isso, poderíamos incorrem em crime de prevaricação”, disse Almir David.

O comandante da PM informou que a exoneração do major Tabaiares ocorreu por solicitação do coronel Eliézio, que alegou ter sido destratado pelo comandante do Batalhão Ambiental durante uma abordagem. “Ele foi afastado por indisciplina, mas isso também vai ser apurado”, afirmou.

Almir David disse, ainda, que o Batalhão Ambiental estava há duas semanas realizando operações no mesmo local, o que poderia prejudicar o trabalho da tropa, que precisa agir em todo o Estado. “Na maioria das vezes, o Batalhão Ambiental é acionado pelo Ciops, que recebe denúncias e o aciona para qualquer lugar. Por isso, eles não poderiam ficar parados em um mesmo lugar por tanto tempo”, argumentou.

Leia o que escreveu o major Tabaiares no Facebook:

Mais uma vez exonerado…agora por não ter retirado o policiamento da AM-070 e com isso ter apreendido quase uma tonelada de carne de caça, conforme foi publicado anteriormente e ainda ter prendido em flagrante um madeireiro por corrupção ativa. Pra quem não sabe a AM-070 é a rodovia por onde se escoa o maior volume de madeira ilegal (uma verdadeira organização criminosa)…carne de caça (carnificina já postada)…drogas..etc…
Os madeireiros não conseguiam passar… todos os dias recebia informe de tentativa de suborno dos PMs…
Muitos interesses estavam em jogo… haviam vários caminhões carregados de madeira “abandonados” e queriam passar a qualquer preço…NÃO CEDI A CORRUPÇÃO…mas a ordem veio pra abandonar todo tipo de policiamento na dita estrada e proibir a tropa de sair pra patrulhar!!! Não dei tal ordem… não darei nunca uma ordem tão absurda e imoral… mesmo que supostamente tenha vindo do atual governador (o quê duvido)…
Parabéns aos criminosos que transportam madeira irregular…aos que caçam e matam centenas de animais… que exploram os ribeirinhos…que poluem e destroem a nossa amazônia!!!
Parabéns ao deputado que disse que iríamos ser tolhidos de trabalhar pois estavam matando “apenas” alguns animais…umas “arvorezinhas”… que devíamos ser mais complacentes e que teve resposta negativa pois apenas cumpríamos a LEI!!
Me sinto prestigiado por sair por cima…sem me curvar ás ameaças…e ao dinheiro fácil…sem envergonhar meus filhos…pais…avós…e subordinados!!!!
Sei que serei punido, pois sempre o fazem ao arrepio da lei, calcados em um regulamento draconiano..onde o superior pode tudo e o subordinado nada!!!

Veja mais imagens de animais silvestres mortos e apreendidos no dia 9 deste mês:

animais mortos 2 animais mortos 3 animais mortos 1 animais mortos 5 animais mortos 4

animais mortos 3

animais mortos 1

 

 

1 Comentário on "Major denuncia corrupção na PM para favorecer crime ambiental"

  1. O que fazer quando uma pessoa leal à sua corporação e com honestidade de caráter passa por uma situação como esta? Melo faltou com a verdade quando se atribuiu o posto de vigilante da democracia. Até hoje se segura no cargo com estimativas de que vá conduzi-lo até o final do mandato. Falta-lhe pulso firme gerenciar o Estado.

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