Magia no futebol

Desde a semana passada, na véspera do dia em que se completaram os 20 anos da saga do menino bruxo Harry Potter, a magia negra virou o grande assunto do futebol português.

Em tom de denúncia, o diretor de comunicação do Porto, Francisco Marques, divulgou e-mails que revelavam: os dirigentes do arquirrival, o Benfica, teriam contratado um famoso feiticeiro da Guiné-Bissau para conquistar o tetracampeonato português.

Entre as mensagens, havia um contrato com descrição dos valores dos serviços sobrenaturais, mostrando também que o contato com “deuses dos estádios” jogam os preços para as alturas: “5 mil euros – Vitória na Supertaça; 100 mil euros – Vitória no Campeonato Português; 10 mil euros – Vitória em cada jogo da Fase de Grupos da Liga dos Campeões; 30 mil euros – Vitória em cada jogo eliminatório da Liga dos Campeões; mil euros – Vitória em cada jogo da Taça de Portugal ou Taça da Liga; e 5 mil euros – Vitória na final da Taça de Portugal ou Taça da Liga”.

O bruxo contratado, o general Doutor Armando Nhaga, estava acostumado a combater “as forças do mal”: ele é ex-chefe da Comissão Nacional da Polícia da Guiné-Bissau. O país africano é considerado um berçário de bruxos, alegadamente com poderes capazes de afastar maus olhados, resultados negativos ou até mesmo mudar o destino do placar.

Os torcedores rivais do Benfica fizeram as contas: em duas temporadas o “Doutor Nhaga” teria direito a receber o total de 258 mil euros (R$ 972,7 mil). Logo, gols perdidos pelos adversários e triunfos improváveis do Benfica foram lembrados e agora poderiam ser explicados pela interferência do benzedeiro da Guiné.

Normalmente vista como uma questão cultural e uma prática ancestral, os rituais de magia na África preocupam entidades como a ONU e até a Fifa. É que na África Ocidental (onde fica a Guiné-Bissau), os feitiços são realizados à custa do sacrifício de animais. Por isso, a Fifa exigiu e a Confederação Africana de Futebol já obrigou as federações filiadas a legislar pela proibição do uso de feitiços para influenciar no resultado dos jogos.

No Amazonas, o conceito de “magia no futebol” também já significou muito mais do que dribles desconcertantes e gols de placa. Um dos mais importantes clássicos do futebol local tem seu nome ligado ao sobrenatural.

Em agosto de 1956 houve um boato de que tinha ocorrido um grande sumiço de galinhas pretas no bairro do São Raimundo. A imprensa da época atribuiu o fato a supostos feitiços feitos por torcedores do Sul-América para vencer o arquirrival São Raimundo.  Os clubes do mesmo bairro iriam pela primeira vez se enfrentar na divisão principal do Campeonato Amazonense.

A notícia dos feitiços mobilizou a comunidade. No dia 5 de agosto, o estádio do Parque Amazonense ficou lotado. Chamou a atenção da imprensa o fato da maioria do público ser formado por mulheres. No total, 3.620 pagantes e a renda recorde na época de Cr$ 72.410,00, com ingressos aos preços de 20 e 40 cruzeiros. Até então, a maior renda do campeonato tinha sido de 40 mil cruzeiros.

Quem ganhou aquele jogo, porém, foi o São Raimundo, por 2 a 1. Beleleu mandou o feitiço para o beleléu e abriu o placar para o Tufão cobrando pênalti. Chicão ampliou o placar. Alemãozinho descontou para o Sulão. O feitiço voltou-se contra o feiticeiro?

A partir daquele jogo, o clássico ganhou o apelido de “Galo Preto”. Dizem que, nas partidas seguintes, em frente de cada uma das sedes dos clubes aparecia uma galinha ou um galo preto morto, acompanhado de vela e adornos. Fato que fazia os torcedores dos dois times irem ao estádio para também saberem qual a magia tinha sido mais poderosa.

Para sorte das galinhas e galos da cidade, com o tempo os torcedores perceberam uma insistente coincidência. Os feitiços funcionavam melhor quando o time por que torciam tinham jogadores melhores que os dos adversários.

O maior filósofo do futebol, Neném Prancha, aliás, tinha uma resposta pronta para quem acreditava na interferência do oculto nos resultados das partidas: “Se macumba resolvesse jogos, o campeonato baiano terminava sempre empatado”.

No Brasil, macumba também é chamado de “trabalho”.  Talvez porque demande sacrifícios. O certo é que: o trabalho que faz as coisas acontecerem costuma exigir uma quantidade grande de uma substância mágica chamada de suor.

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