Jogadores vivem incerteza no futebol do Brasil, diz estudo

Futebol - Campeonato Mineiro: só grandes clubes pagam bem os jogadores (Foto: Bruno Cantini/Atlético MG)

Campeonato Mineiro: só grandes clubes pagam bem os jogadores (Foto: Bruno Cantini/Atlético MG)

SÃO PAULO – Distante das principais estrelas, a grande maioria dos jogadores de futebol no Brasil vive uma situação de vulnerabilidade, salários baixos e até ameaças. Isso é o que revela um levantamento recém-concluído da Federação Internacional dos Futebolistas Profissionais (FIFPro). O estudo envolveu entrevistas com quase 14 mil atletas pelo mundo e mostra que, se a indústria do futebol movimenta bilhões e enriquece cartolas, milhares de seus principais atores – os atletas – vivem à sombra desse cenário de riqueza, glamour e luxo.

Para realizar o maior levantamento já realizado em âmbito mundial sobre a real situação dos jogadores de futebol, o sindicato contou com a ajuda de especialistas da Universidade de Manchester, na Inglaterra.O Relatório Global de Emprego da FIFPro convidou os jogadores a responderem a 23 perguntas, abordando temas como salários, contratos, transferências, treinamento, fixação de correspondências, violência, segurança no trabalho, saúde, bem-estar e educação. No caso dos dados referentes ao Brasil, eles foram coletados a partir de uma pesquisa inicial com cerca de 105 jogadores profissionais espalhados por clubes de todo o País.

O levantamento concluiu que, em média, 52% dos atletas nacionais sofreram atrasos no pagamento de seus salários nos últimos dois anos, um índice bastante alto. No lado B do futebol brasileiro e longe da realidade de astros como Neymar, já independente financeiramente aos 24 anos, a ampla maioria dos jogadores – 83,3% – ganha menos de US$ 1 mil (R$ 3,5 mil) por mês. Muitos deles segundo a pesquisa, precisam dividir seu tempo entre o futebol e outros empregos que possam ajudar a complementar a renda. Apenas 1,1% dos jogadores profissionais do Brasil recebem um salário maior que R$ 50 mil.

Levando-se em consideração os dados da CPI do Futebol no Senado, encerrada nesta semana sem pedir punição para nenhum dirigente do futebol brasileiro, pode-se concluir que o que José Maria Marin e Ricardo Teixeira, dois ex-presidentes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), ganharam em salários apenas como presidentes do Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2014 (cerca de R$ 11 milhões) seria suficiente para bancar dez clubes durante um ano inteiro.

Incerteza

A instabilidade é outra marca dos atletas de futebol no Brasil. Na pesquisa realizada em 54 países e com jogadores que atuam em 87 ligas na Europa, Américas e África, os brasileiros são os que têm em média os contratos mais curtos, de apenas 11 meses. E 47% deles sequer têm uma cópia de seu contrato de trabalho.

A vulnerabilidade ainda é reforçada pela alta taxa de jogadores que afirmam ter sido alvos de algum tipo de ameaça. Segundo a pesquisa, 29% dos que atuam no futebol brasileiro disseram que foram vítimas de ameaças físicas por parte de torcedores e mesmo treinadores.

Os dados nacionais, em muitas ocasiões, são ainda mais dramáticos que a média mundial. Segundo o estudo, mais da metade dos jogadores brasileiros registrou atrasos em seus pagamentos – a taxa internacional é de 40%. As ameaças contra os brasileiros ainda seriam quase três vezes superiores à média mundial, de apenas 10%.

Preocupação

O lado B do futebol mundial também preocupa o sindicato. “Não podemos aceitar esta situação”, comentou o secretário-geral da FIFPro, Theo van Seggelen.

Segundo ele, a média de salários no esporte oscila entre US$ 1 mil (R$ 3,5 mil) e US$ 2 mil (R$ 7 mil) por mês. “Nem todos os jogadores têm três carros de cores diferentes. São seres humanos normais, que merecem ser pagos a tempo e hora, porque também têm filhos e contas para pagar”, alerta Van Seggelen.

Apenas 2% dos jogadores têm vencimentos acima de US$ 750 mil (R$ 2,6 milhões) por ano, patamar considerado como a fronteira entre os atletas da pequena elite mundial do esporte o restante dos milhares de profissionais. “Essa é a realidade de nossa indústria do futebol, que é completamente diferente do que a maioria dos torcedores pensam”, afirmou o secretário-geral da FIFPro.

(Estadão Conteúdo/ATUAL)

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