Interação social e estigma na fronteira Brasil-Venezuela

A Amazônia tem mais uma doutora em sociologia. Talvez uma das mais jovens doutoras da região, Alessandra Rufino Santos, de Boa Vista, Roraima, acaba de defender sua tese intitulada Interação social e estigma na fronteira Brasil/Venezuela: um olhar sociológico sobre a migração de brasileiros e venezuelanos. Realizada no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), a tese foi orientada pelo professor doutor Karl Martin Monsma, e defendida com êxito em março deste ano.

A temática estudada é atual e desafiante. Para esclarecer a questão migratória, Alessandra Santos elabora uma análise sociológica profunda da estrutura social da fronteira Brasil/Venezuela tendo por referência as relações transnacionais motivadas pelo fenômeno migratório de brasileiros e venezuelanos marcado por interação e estigmas sociais.

Alicerçada nos pressupostos teórico-metodológicos da fenomenologia social, a autora retrata a fronteira Brasil/Venezuela como lugar da migração e identifica as tipificações sociais e os processos de estigmatização dos migrantes. Também articula algumas noções acerca da construção identitária resultante da interação social entre os migrantes em diferentes níveis e processos sociais.

A base de sua análise é a interação social entre os migrantes e o grupo social do lugar de destino relacionada, sobretudo, às relações comerciais, às relações de trabalho, às relações familiares e de amizades. Analisa as razões pelas quais a imigração venezuelana impactou mais o Brasil, especificamente o Estado de Roraima, e explica porque a recíproca não se aplica no caso da migração brasileira na Venezuela, em especial no Estado Bolívar. Aprofunda a temática migratória observando, em suas pesquisas de campo, como ocorre o processo de interação social dos migrantes brasileiros e venezuelanos com os moradores da fronteira Brasil/Venezuela. Compreende que tanto os brasileiros como os venezuelanos compartilham uma condição fronteiriça marcada, por um lado, pela interiorização de uma identidade incerta e estigmatizada e, por outro lado, pela possibilidade concreta de interação social.

Atenta às dinâmicas migratórias atuais, a autora, observa que nos fluxos migratórios dessa fronteira, os venezuelanos passaram a ser mais estigmatizados no Brasil do que os brasileiros na Venezuela. Dentre outros fatores de ordem social e política, isso ocorre pela ausência de políticas migratórias no Estado de Roraima que, por ironia do destino formou-se graças a fluxos migratórios relativamente recentes, vindos de outras regiões do Brasil e dos países transfronteiriços.

Se comparada à migração de brasileiros na Venezuela, a migração venezuelana em Roraima é ainda muito tímida e proporcionalmente pequena dado o histórico de décadas da migração brasileira, de modo especial nas áreas de mineração e garimpo, nas quais circulam milhares de brasileiros de diversas regiões do País com predominância de roraimenses, paraenses e maranhense.

A autora adverte que Roraima tem acolhido, mas ainda não consegue integrar os venezuelanos na sua dinâmica social. Isso revela a contradição e os paradoxos desse contexto migratório que, num primeiro momento, utiliza-se de migrantes para formar-se enquanto estado político, e, num segundo momento rechaça os novos fluxos migratórios. Essa realidade revela a inoperância de políticas migratórias e, ao mesmo tempo, a negação do passado recente da conformação geopolítica e demográfica do Estado de Roraima. Em alguma medida essa situação é compartilhada também pelos Estados vizinhos, de maneira especial o Amazonas.

Para a autora “os venezuelanos que começaram a migrar em massa para o Brasil, sobretudo a partir de 2015, compartilham um processo ambíguo de desqualificação social devido ao fato de muitos terem ensino superior e desempenharem trabalhos informais, passando pela inferiorização de uma identidade incerta e estigmatizada” nas ruas de Boa Vista. Por outro lado, a autora acredita que “pela possibilidade concreta de interação com os brasileiros, ainda que periférica, reitera-se a experiência migratória como processo de adaptação e resistência no cotidiano transfronteiriço”.

Por fim, a autora conclui que, a partir de suas experiências diferenciadas de inserção na fronteira Brasil/Venezuela, “brasileiros e venezuelanos compartilham escolhas circunscritas a um emaranhado de acontecimentos históricos e sociais que as suas vontades passam a atender melhor”. Para ela, “isso faz com que esses migrantes se encontrem em um espaço contraditório de provisoriedade subjetiva, dando abertura para o entendimento de que, na interação entre um sujeito estigmatizado e um outro que é considerado “normal”, o estigmatizado poderá sentir-se constantemente vigiado”.

A tese já se encontra disponível para consulta e leitura no link de periódicos da UFRGS e representa uma grande contribuição para a formação do pensamento social na Amazônia, tendo por base os estudos migratórios. Sua leitura é indicada para quem deseja conhecer mais esta realidade contextual e aprofundar a temática das migrações pelo viés sociológico. Parabéns à doutora Alessandra Rufino Santos, atualmente professora da Universidade Federal de Roraima, pela excelente tese e aguardamos sua publicação para maior acesso e circulação.

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