Inpa – 63 anos: pesquisa e desenvolvimento – parte I

O início da celebração de mais um aniversário do Inpa nos deve mobilizar no momento em que a Amazônia Ocidental, parcela amazônica onde se insere o modelo Zona Franca de Manaus, demanda um olhar mais atento de brasilidade à luz de suas necessidades de infraestrutura e qualificação de seus recursos humanos. Ninguém preserva um bem sem lhe atribuir uma base e uma finalidade econômica. O pensador amazonense Arthur Cezar Ferreira Reis, que dirigiu o Inpa em seus primórdios e o Amazonas, no ano em que foi implantada a Zona Franca de Manaus, mostrou, num comentário histórico e emblemático, o papel dessa instituição e sua necessidade na ótica da Amazônia, do país e do planeta: “É preciso dar crédito ilimitado ao Inpa, não se lhe exigindo soluções imediatistas, que não podem ser dadas sem que se comprometa a excelência dos resultados. Pesquisa, convém recordar, não se faz da noite para o dia, requer tempo, cautela, pertinácia, dedicação, entusiasmo, confiança e projeto firme. Sem isso, poderá haver exotismo, sensacionalismo, nunca conclusão técnico-científica.” Criado em 1952 e implementado em 1954 – o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) – ao longo dos anos, vem realizando estudos científicos do meio físico e das condições de vida da região amazônica para promover o bem-estar humano e o desenvolvimento socioeconômico regional.

Dos escombros da guerra e da contravenção

Atualmente, o Inpa é referência mundial em Biologia Tropical. Como integrar esse acervo de mais de 6 décadas de investigação, coleções de saberes, espécies e conquistas, no desafio de fazer do genoma disponível e potencial a construção da bioindústria do conhecimento? Eis a questão. Tanto Charles Darwin, como Alfred Wallace Russel, responsáveis pela Teoria da Evolução, instrumento metodológico para entender o papel da biologia molecular na compreensão e perenização da vida e da juventude, anteviram na floresta tropical a chave dos essenciais dilemas da humanidade. Os primeiros anos do Inpa foram caracterizados por pesquisas, levantamentos e inventários de fauna e de flora. Hoje, o desafio é expandir de forma sustentável o uso dos recursos naturais da Amazônia, as respostas que o homem precisa para recompor sua relação equilibrada com a natureza e conquistar a necessária harmonia. As origens do Inpa, é importante recordar e cotejar, estão associadas aos escombros da II Guerra Mundial e ao compromisso de fazer pesquisa a partir da ótica e do interesse de nossa gente. O Inpa é gerado, portanto, dentro de um contexto de esperança, de reconstrução e de vida, numa resposta de brasileiros insignes, de homens da Ciência – que enxergaram o mundo muito além dos livros e do laboratório. E que souberam detectar no conhecimento as armas mais adequadas para entender e equacionar os desafios provocados pela insensatez da guerra, do rescaldo da fome, do calvário dos refugiados, dos desequilíbrios ambientais e desigualdades socioeconômicas.

No contexto global

É importante destacar, na afirmação do Inpa, o papel da Unesco, sob a batuta ideológica e financeira de Washington, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura, que buscava invocar o imperativo de Educação e Ciência como mecanismo de reivindicação – leia-se ocupação sob os argumentos da filantropia internacional – das promessas que o bioma das florestas tropicais representam. “Eles não queriam nosso bem, estavam, e sim nos nossos bens”, diria o Padre Antônio Vieira a respeito. Daí o grande projeto de desencadear essa ocupação através de um laboratório científico internacional na Amazônia, com a criação do Instituto Internacional da Hileia Amazônica, o IIHA. O momento e as razões geopolíticas não poderiam ser mais apropriados para “naturalizar” a proposta de internacionalização da Amazônia, uma ambição antiga, recorrente, e sempre revestida de postulados científicos ou sócio-humanitários, para escamotear objetivos políticos, geoestratégicos e econômicos obscuros. Com o apoio até de alguns cientistas brasileiros e de países vizinhos, a Unesco postulava, em seu ideário, “a superação da ignorância, do preconceito e do nacionalismo xenófobo, por meio da educação, da cultura e da ciência, e erigia como seu objetivo a criação de um consenso em torno de um mundo mais convergente, um pluralismo ideológico e político alicerçado numa solidariedade moral e intelectual contra o nazi-fascismo”. Um sofisticado sonífero bovino! Hoje a pretensão de posse e usufruto é asiática, chegando com os alforjes recheados de sedutoras platas, num país saqueado pela gestão fraudulenta e autoritária.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. 
Editor responsável: Alfredo MR Lopes. cieam@cieam.com.br

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