Hawking e os pênaltis dos carecas

Morreu aos 76 anos, o britânico Stephen William Hawking (8 de janeiro de 1942-14 de março de 2018) um dos mais populares cientistas de todos os tempos. Nada mal para quem, aos 21 anos, foi diagnosticado com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) e recebeu a previsão médica de que morreria em pouco tempo.

Mesmo debilitado pelos efeitos da doença, Hawking conseguiu o feito de popularizar a física; ajudou leigos a entenderem complicadas teorias sobre buracos negros, relatividade, universos paralelos e forneceu inusitadas hipóteses sobre o que aconteceu e o que ainda pode acontecer com o Planeta. Como se isso fosse pouco, o gênio ainda dedicou tempo para decifrar um dos grandes desafios da humanidade: o universo do futebol.

Provavelmente demandado por insistentes torcedores, Hawking elaborou um estudo científico para fazer a Inglaterra voltar a conquistar uma Copa do Mundo –  façanha realizada somente em 1966.  Hawking analisou detalhes de 45 partidas dos mundiais e definiu cinco fatores para um potencial bicampeonato da Inglaterra: ambiental, fisiológico, psicológico, político e tático. A ideia era ajudar a Inglaterra na Copa de 2014, mas o “English Team” não deu muita bola para as conclusões do craque da física e acabou se dando mal: foi eliminado na primeira fase.

No fator psicológico, por exemplo, o estudo comprovou que a Inglaterra teve resultados melhores quando jogou de uniforme vermelho em vez do branco. Hawking especulou que o vermelho faz com que os jogadores se sintam mais confiantes e pareçam mais agressivos. A Inglaterra jogou de camisa branca nas três partidas do Mundial de 2014. O resultado: derrotas para Itália e Uruguai, empate com a Costa Rica.

Ajudar seu país a encontrar o rumo do título repete um pouco a experiência pessoal do físico com o esporte. Ele foi timoneiro da equipe de remo da universidade de Oxford – função pela qual ajudava seus colegas a avançarem na direção e no ritmo certo. A prática foi decisiva também para o tímido e isolado jovem adquirir confiança e estima, inclusive para criar e defender heterodoxas hipóteses que contribuíram com o avanço da ciência.

Outra minuciosa pesquisa a respeito do futebol e com potencial para ajudar muito mais pessoas do que apenas os ingleses foi a “Teoria do Pênalti Perfeito”.  A tese é resultado de análises de todas as disputas por penalidades em Copa do Mundo, desde 1978. O primeiro ponto que Hawking destacou foi a velocidade. A corrida do jogador para a bola é considerada fundamental para a conclusão da penalidade: o atleta tem 87% de chances de fazer o gol caso dê mais de três passos até a batida. A probabilidade cai para 58% se a corrida for mais curta.

O segundo ponto salientado pelo cientista foi o posicionamento dos pés. A recomendação é de que se chute com a parte lateral e não com o peito do pé. Ao chutar com a parte lateral do pé, as chances do pênalti ser convertido aumentam em 10%.

E, por último, o lugar alvo da batida. O estudo concluiu que os pênaltis chutados nos cantos superiores – não importando se do lado esquerdo ou direito – foram eficazes em 84% das vezes. “As estatísticas confirmam o óbvio. Chute no canto superior esquerdo ou direito”, disse Hawking na ocasião.

Não precisa ser nenhum gênio para perceber o quanto era incorreta a estratégia do goleiro Muralha, na final da Copa do Brasil de 2017, quando ele resolveu pular sempre para o mesmo lado. A orientação do cientista que ocupou a mesma cátedra de Isaac Newton é exatamente oposta: pular de um lado para o outro, o que aumenta as chances de defesa em 18%.

Entre os fatos mais curiosos do estudo analítico sobre futebol realizado por Hawking está a conclusão que não há vantagem ou desvantagem para o fato de um jogador ser destro ou canhoto. Agora, jogadores carecas e de cabelos loiros, porém, têm mais chances de acertar pênaltis.  O reflexo do brilho do sol, ou das luzes dos refletores, vinda da cabeça dos cobradores atrapalharia a visão do goleiro? “A razão para isso não está clara. Isso continuará sendo um dos grandes mistérios da ciência”, brincou o britânico.

O humor, aliás, era uma grande característica do cientista fã de clubes de strip-tease. Como se pode comprovar na observação dele sobre as pessoas que acreditam na inexorabilidade do destino: “Percebi que até as pessoas que afirmam que tudo é determinado de antemão e que não podemos fazer nada para mudar, mesmo essas pessoas olham para os lados antes de atravessar a rua”.

Em seu último estudo sobre o futebol, Hawking previu que o Brasil seria o campeão da Copa do Mundo de 2014. Fanáticos pela objetividade diriam que o cientista errou.

Talvez Hawking tenha apenas antecipado o resultado da Copa de 2018. Gênios costumam enxergar coisas antes das pessoas comuns e também têm mania de estar à frente do seu tempo.

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