Francisco começa viagem a Equador, Bolívia e Paraguai

Papa Francisco na Praça São Pedro Foto Alfredo Borba Wikimedia Commons

Embora vá cumprir compromissos de chefe de Estado em gabinetes, Francisco impôs áreas marginais no roteiro, o que de alguma maneira surpreendeu os próprios anfitriões (Foto: Alfredo Borba/Wikimedia Commons)

VATICANO – A afeição do papa Francisco por lugares fora do eixo do poder e do conforto, cultivada desde quando era só Jorge Bergoglio nas áreas miseráveis de Buenos Aires, estará à vista a partir de hoje no Equador, primeira parada de sua visita de 166 horas à América Latina. Aos 78 anos, o primeiro papa jesuíta escolheu ainda visitar Bolívia e Paraguai em uma viagem de oito dias, sete voos e 22 discursos.

Especialistas ligados a Francisco identificam um roteiro em sintonia com os movimentos concretos e simbólicos que ele fez até agora. Desde o começo de seu papado, em março de 2013, arrastou milhares de turistas, bem como o olhar de telespectadores, ouvintes e leitores, para regiões associadas à miséria, seja ela material ou espiritual. Esta é sua nona viagem internacional – a primeira, ao Brasil, em 2013, fazia parte da agenda de Bento 16.

“Francisco faz uma clara opção pela periferia. Não esqueçamos que ele foi a Albânia, Bósnia, Lampedusa e Filipinas”, disse ao Estado, de Roma, Sergio Rubin, coautor da biografia El Jesuita, antes de embarcar com Francisco no voo de 13 horas para o Equador, onde chegaria na manhã de hoje. Os dois primeiros países citados por Rubin passaram por guerra na divisão da Iugoslávia. A Ilha de Lampedusa, ao sul da Itália, é destino dos imigrantes que escapam de conflitos no Norte da África. Atingidos pelo Tufão Hayan em dezembro de 2013, os filipinos contaram 5 mil mortos.

“O papa aposta em uma geopolítica da periferia emergente. Equador, Bolívia e Paraguai são países com passado de guerra com vizinhos, estigmatizados como perdedores de território. São lugares com instituições voláteis no passado, mas com crescimento recente e certa estabilidade”, avalia Andrés Beltramo, jornalista argentino autor de La Reforma en Marcha que convivia com o cardeal Bergoglio.

Embora vá cumprir compromissos de chefe de Estado em gabinetes, Francisco impôs áreas marginais no roteiro, o que de alguma maneira surpreendeu os próprios anfitriões. Equatorianos ainda ontem (4) faziam mutirão para limpar ruas e aparar a grama das calçadas por onde passará o pontífice.

Na Bolívia, ele irá a Palmasola, uma das prisões mais violentas do continente, reformada em parte com dinheiro dos próprios detentos. Em Santa Cruz, onde fica a prisão, haverá lei seca. No trajeto de La Paz a El Alto, onde está o aeroporto, operários tiraram esta semana oferendas rituais do caminho de um papa criticado pela ala conservadora do catolicismo argentino por estimular o convívio com outras crenças. No Paraguai, Francisco irá ao Bañado Norte, uma das áreas mais miseráveis de Assunção, onde o pavimento das ruas recebe reforço.

Outra conexão entre os três países é a representatividade da população de origem indígena. As missões erguidas na América do Sul pelos jesuítas foram alvo predileto de estudo de Bergoglio. “O papa fala da integração dos povos, defende o respeito das diferenças. Toda vez que encontrou povos originários, falou de um Deus como uma força, não o Deus católico”, diz Federico Wals, que foi secretário de Bergoglio em Buenos Aires durante seis anos e conhece seus hábitos. “Ele não usa computador, não tem celular e não olha TV, por uma promessa nos anos 90, mas sabe que são tecnologias poderosas”, afirma, ressaltando o uso dessas ferramentas por religiões para as quais o Vaticano perdeu seguidores. “Não está errado dizer que o crescimento evangélico nesses países preocupou. É paradoxal, pois a Igreja Católica, que se caracteriza pela palavra, estava perdendo fiéis – por não poder se comunicar – para grupos evangélicos que utilizam todos os meios de comunicação”, avalia Wals.

A América Latina tem 42% dos católicos do mundo, segundo o Vaticano. Uma pesquisa de 2013 do Pew Research coloca o Paraguai como o país latino-americano que mais se identifica como tal (89%). No Equador o porcentual é de 79% e na Bolívia, de 77%. O Brasil é o 12.º, com 61%, embora seja a maior nação católica – 163 milhões.

Na Argentina, o grupo Hagamos Lío (façamos bagunça, em tradução livre), liderado por um sobrinho de Bergoglio, tenta transformar essa frase, dita por Francisco, em prática, com distribuição de roupa e comida. “Ele quer espalhar esse espírito de ação para o continente. Sua mensagem é provocadora”, avalia Beltramo. Isso não significa revisar dogmas.

Francisco tem prevista uma reunião com um representante da comunidade gay no Paraguai, mas não há sinais de que se aproxima uma aceitação do matrimônio homossexual. Essa foi a razão de uma briga violenta do então arcebispo Bergoglio com os Kirchners na aprovação da lei argentina em 2010. “Sua visão é não julgar, mas ele considera matrimônio a união entre homem e mulher”, diz Beltramo, para quem o papa equilibra o cerne conservador da instituição com um viés revolucionário.

“Só após dois anos ele foi aos EUA. Na França, ficou poucas horas. São sinais. Isso sem contar a nomeação de cardeais de países fora do centro de poder no último consistório. Com mais duas reuniões de cardeais como essa, ele moldará a Igreja a sua própria visão”, prevê Wals. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

(Estadão Conteúdo/ATUAL)

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