Fieam 58 anos: A utopia dos pioneiros

“Se nós não homenageamos nossos mortos, todos os dias eles morrem um pouco dentro da gente”

Faz escuro mas eu canto, diria Thiago de Melo. E o canto, na festa da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas, de 58 anos, é a celebração de nossos pioneiros. Moysés, Isaac, Simões, Petrônio, Lustoza, Antônio Silva os viu meninos, em ação.

A utopia é uma visão, um passo além dos conhecidos limites do possível. Como o horizonte, a utopia nunca é alcançada. Quanto mais perto dela nos encontramos, mais se distancia. Apesar disto, como horizonte, está presente para inspirar navegadores em busca de novas rotas a caminho de portos longínquos, aparentemente inalcançáveis; o pioneiro é navegador que atravessa mares nunca dantes navegados em busca de um destino arrojado. Com isso, ele enfrenta adversidades, almeja um ideal de emancipação, realiza sonhos e, finalmente, torna-se uma fonte de aprendizagem e de inspiração, conquistando uma segunda vida na mente coletiva.

Antecipação do futuro

As utopias enunciadas pelos empreendedores e pioneiros constituem um projeto para a região amazônica. Uma região que aspira o respeito às suas especificidades, importância de sua diversidade e grandeza do seu potencial. São utopias fundamentadas em políticas públicas que abrangem o médio e longo prazo, transcendem os mandatos e superam o imediatismo eleitoral. Elas reclamam a educação e o conhecimento para promover a dimensão humanista na condução de saberes para formar e reter na região a juventude talentosa. Assim, será possível assegurar o melhor aproveitamento da ictiofauna, uma nova economia florestal, tecnologias para viabilizar a segurança alimentar, energética e de saúde, e a reestruturação das cadeias produtivas com o pleno aproveitamento das bioengenharias e da bioinformática.

Superando desafios

Os pioneiros empresários da Amazônia foram expostos desde jovens a adversidades e choques culturais. Tais contratempos decorriam muitas vezes de fases turbulentas que marcaram sua infância ou adolescência, em momentos de tensões históricas, quando não de dificuldades e até de penúria na vida pessoal. Longe de suas culturas de origem, eles enfrentaram desde cedo a barreira de outros hábitos e idioma, valores e regras sociais. Com isso, alcançaram resultados inconcebíveis no início das suas caminhadas e desenvolveram uma sensibilidade aguçada com uma capacidade incomum de resiliência.

Legado de luta

Estas características dos pioneiros resultaram em ensinamentos que  inspiram contemporâneos e descendentes a responder aos desafios da modernidade. Como transformar as adversidades enfrentadas na juventude num patrimônio para a construção de vidas significativas? Por que ir ao encontro do outro para melhor percorrer o labirinto da vida? Como combinar razão e intuição, na busca permanente de novos caminhos?

A maioria destes pioneiros da Amazônia integrou no seu projeto o rigor econômico, a responsabilidade social, a sustentabilidade ambiental e o respeito à diversidade cultural. Com isso viabilizaram sinergias prodigiosas. Eles fizeram da riqueza um meio para concretizar seu sonho; da sabedoria, a valorização dos semelhantes; e, do poder, a autodisciplina para perseverar no rumo traçado. Seus legados revelam que eles souberam conciliar os tempos da urgência e da relevância, harmonizaram a lógica dos resultados com a lógica dos valores. Construíram o futuro predeterminando o seu destino. Confirmaram que o enfrentamento de adversidades forja a perseverança e a habilidade de conviver com a incerteza.

Time da pesada

Além dos pioneiros empresários, pioneiros cientistas marcaram os dois últimos séculos. Entre tantos, o autor deste livro lembra Adolpho Ducke, Aziz Ab’Sáber, Bertha Becker, José Walter Bautista Vidal, Alexandre von Humboldt e Margareth Mee. Cada um deles, no seu campo de conhecimento, trouxe uma contribuição marcante para o avanço da ciência na Amazônia, seu território de investigação.

Samuel Benchimol integra duas comunidades de pioneiros: a dos empresários e a dos cientistas. Construiu um legado de professor, pesquisador, líder comunitário e empresário, conciliou a teoria com a prática, o pensamento com a ação, o conhecer e o empreender numa dialética fecunda e singular. Defendeu, bem antes do Relatório Brutland, o desenvolvimento sustentável da Amazônia, respeitadas quatro diretivas: viabilidade econômica, adequação ecológica, equilíbrio político e justiça social. Tornou-se um pioneiro dos estudos amazônicos a que hoje se dedicam tantas figuras eminentes no mundo inteiro. Obrigado, Antonio, seu Time Fieam-Cieam, e os amigos Jaques e Jaime, presentes nesta alocução.

Esta Coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras, de responsabilidade do CIEAM. Editor responsável: Alfredo MR Lopes. cieam@cieam.com.br

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