“Eu sou porque nós somos”

Enterratam a semente da subversão. Basta pensar um pouco.

Com grande frequência ouvimos a frase “minha liberdade acaba quando começa a do outro” nos mais diversos ambientes e situações. E a princípio faz todo o sentido, afinal é preciso saber viver em sociedade. Entretanto, um olhar mais profundo contraria essa visão.

A vereadora assassinada há dez dias, Marielle Franco, tinha como exemplo de sua conduta filosófica uma sabedoria da antiga cultura africana Bantu, – que influenciou diversos povos, como os egípcios, e por consequência os gregos, mas apesar disso, sua relevância foi varrida pelo eurocentrismo – “Eu sou porque nós somos” repetia a ativista.

Essa frase expressa com maestria uma sabedoria potente, e esclarecedora de nossa própria natureza. Contrariando o individualismo liberal, ela deixa claro que ninguém é alguém sem ninguém. A minha humanidade depende da humanidade de todos. Isto é, os meus direitos só estarão garantidos quando os direitos de todos assim estiverem. Da mesma maneira – em nosso desenho social moderno – o que permite minha liberdade, minha existência perante a sociedade não é outra coisa senão os meus direitos.

Esse pensamento se faz extremamente poderoso. Porque é real. Porque enfrenta um desejo social contraditório e doentio, que discursa pela busca da felicidade e da paz, mas pratica a indiferença por um lado, e por outro o-narcisismo-das-pequenas-diferenças.

Realismo e inserção na totalidade era o que não faltava na perspectiva construída na conduta da vereadora. Ela percorria com foco e compromisso as veredas da luta contra o genocídio negro, contra a opressão sofrida por diversas minorias, vivida e repartida na própria pele. Era inteligente e estudada. Cabeça diferenciada, irônica e simbolicamente determinado a ser alvo das balas da execução. Pagou com a vida as ideias e condutas de sua obstinação.

Morreu fazendo parte de mais uma assustadora estatística. Na verdade,  Marielle não morreu como as milhares de pessoas que ela tentava salvar e vingar. Não morreu apenas no estatuto de mulher negra, lésbica, pobre e favelada. Ela entrou numa outra estatística, num grupo especial, infinitamente mais restrito, de pessoas que realmente vão fundo para mudar essa realidade, e com isso brincam com fogo.

A estatística assustadora que Marielle agora faz parte é a de um Brasil recordista mundial em assassinatos contra líderes populares que lutam pelos direitos humanos. Poucas coisas expressam de maneira tão desesperadora o projeto de aniquilamento da Democracia.

Na maioria dos casos desse tipo de assassinato político, os mortos se dão na dinâmica rural do país. Líderes que denunciam os abusos aos direitos humanos, e que lutam pelo direito a terra para a população mais pobre, são frequentemente assassinados por combater o latifúndio.

Ao contrário desses crimes todos – onde a execução é feita sem o conhecimento do grande público, e com ausência de cobertura da mídia por possibilidade de desgastar a imagem do “agro é tec, agro é pop, agro é tudo” – a execução da vereadora socialista se deu num grande centro urbano, numa clara afronta às instituições.

Em sua instância civil, Marielle era muitas, era gigante. E o era porque carregava o símbolo da busca por novos tempos. E com isso era muito ameaçadora. Não só na capacidade de denunciar as sistemáticas injustiças e atentados que esse povo sofre, mas também porque talvez incomode muito ver alguém que simboliza tão fortemente os oprimidos, carregar, com grandeza, a semente da subversão.

Com isso, é enorme o erro de enterrá-la. Na medida em que aqueles que a mataram reanimam mais um suspiro de subversão.

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