Estranhos à nossa porta

‘Estranhos à nossa porta’ é o título do último livro do sociólogo polonês Zygmunt Bauman falecido em 9 de janeiro de 2017, aos 92 anos. Recentemente publicado no Brasil pela Editora Zahar, com tradução de Carlos Alberto Medeiros, o livro faz parte de uma obra extensa sobre as desigualdades sociais na sociedade moderna, caracterizada, segundo Bauman pela “liquidez, fluidez, volatilidade, incerteza e insegurança, guiada pela lógica do agora, do consumo, do gozo e da artificialidade”. Trata-se de uma obra oportuna e necessária na atual conjuntura mundial marcada por intensa mobilidade humana.

Em ‘Estranhos à nossa porta’ o autor nos desafia a uma reflexão atual e necessária sobre a crise das migrações e dos refugiados no mundo inteiro. Essa temática, aliás, é recorrente na obra deste sociólogo que entende as migrações e os refugiados como um sintoma das desigualdades sociais, das injustiças econômicas, dos processos de exclusão, das guerras, das crises políticas e da escandalosa concentração da economia mundial nas mãos de uns poucos grupos econômicos. Em outro livro lançado no Brasil em 2004, intitulado ‘amor líquido’, Bauman afirma que o sistema capitalista vem canalizando “forças que causam o deslocamento e transformam seres humanos em refugiados” que em outras palavras representam “um lixo humano de difícil reciclagem”.

Enquanto de um lado crescem as economias mundiais, avançam as tecnologias que encurtam o tempo e as distâncias, de outro lado “cada vez mais, os refugiados se veem sob fogo cruzado, mais exatamente, numa encruzilhada, expulsos à força ou afugentados de seus países nativos, mas sua entrada é recusada em todos os outros”. Cada vez mais a sociedade moderna vem produzindo cidadãos sem pátria, que “perdem seu lugar na terra, catapultados para lugar algum, para um flutuante ‘lugar sem lugar’, existente por si mesmo, fechado em si mesmo e ao mesmo tempo abandonado na infinidade do mar”.

O último relatório anual ‘Tendências Globais’ do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), publicado no final de 2015, revela um total de 65,3 milhões de pessoas deslocadas por guerras e conflitos ao redor do mundo. De acordo com o ACNUR, para cada grupo de 113 pessoas no planeta, 1 é solicitante de refúgio e outras 4 são migrantes internacionais que, de acordo com dados do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU (DESA), em 2015 atingiu a cifra de 244 milhões de pessoas.

Diante desse quadro de intensa mobilidade humana, Bauman nos faz refletir sobre as causas dos deslocamentos. Em ‘Estranhos à nossa porta’ Bauman afirma que os migrantes e os refugiados representam apenas a parte visível do iceberg que esconde uma infinidade de problemas e contradições da moderna sociedade capitalista que não tem lugar para pobres sem poder de consumo. Ao mesmo tempo que a sociedade vem produzindo esses milhares de migrantes e refugiados, simultaneamente vem erguendo muros para barrar a sua entrada e limitar ou impedir a sua circulação ao redor do mundo.

Bauman chama a atenção para “o pavor provocado pelas migrações e o processo de desumanização dos migrantes e refugiados” nas sociedades de destino. Diante do crescente conservadorismo nas políticas mundiais, o autor demonstra em sua obra “como políticos têm explorado os temores e ansiedades que se generalizaram em todo o planeta em relação aos migrantes e refugiados”. Os políticos conservadores mencionados por Bauman, “têm ao seu lado a mídia que se encarrega de disseminar por toda parte ‘o pânico moral’ que representa um “medo de que algo terrível esteja ameaçando o bem-estar da sociedade na pessoa dos migrantes e refugiados”, que na sua maioria é composta por mulheres e crianças.

A disseminação indiscriminada do ‘pânico moral’ vem fazendo com que a sociedade tenha dificuldade de entender que “muito mais do que uma crise migratória, vivemos uma crise humanitária, uma crise ética, política e moral” intermediada pela inversão de valores de uma economia mundial que coloca a vida de milhares de pessoas em situação de ‘vulnerabilidade e desumanidade’. Basta analisar algumas chamadas de matérias jornalísticas para confirmar a tese de Bauman de que parte da mídia sensacionalista vem atuando de forma irresponsável para a disseminação do ‘pânico moral’ em relação aos migrantes e refugiados, contribuindo assim, para a criminalização dessas pessoas que já sofreram o bastante nos mais terríveis processos de deslocamentos. Trata-se de uma xenofobia dissimulada que vai atingindo, aos poucos, parte da sociedade que se deixa conduzir por manchetes e chamadas jornalísticas do tipo: ‘invasão de migrantes’, ‘fragilidade das fronteiras’, ‘migrantes tomam trabalho dos locais’, ‘eles trazem doenças’ e muitas outras frases de efeito que justificam discursos políticos para o fechamento das fronteiras, construção de muros, rigidez nas legislações migratórias e, acima de tudo a omissão de políticas públicas para migrantes e refugiados.

Na última parte de ‘Estranhos à nossa porta’ o experiente sociólogo nos recorda que as migrações representam uma oportunidade ímpar para a sociedade de acolhida ampliar seus conhecimentos, ter acesso a outras culturas e convivências, aprender novas línguas e outras formas de lidar com os problemas. Nos convida a rejeitarmos as traiçoeiras tentações da separação, do estranhamento, da rejeição ao novo e a “reconhecermos nossa crescente interdependência como espécie humana e encontrarmos novas formas de convivência em solidariedade e cooperação com aqueles e aquelas que podem ter opiniões ou preferências diferentes das nossas”. Por fim, Bauman nos alerta que na atual conjuntura de mobilidade humana, “em vez de muros, precisamos construir pontes”.

 

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