Egydio Schwade, o amazonense

O filósofo, teólogo, indigenista e ativista social Egydio Schwade foi homenageado nesta semana com o título de cidadão do Amazonas pela Assembleia Legislativa. Propositura de minha autoria, aprovada no ano passado.

Egydio nasceu na cidade de Feliz, no Rio Grande do Sul, estudou filosofia e teologia, e queria seguir na vida religiosa, mas decidiu largar tudo para se dedicar à defesa dos mais pobres, dos mais necessitados, em defesa dos povos indígenas. Desde 1963 está dedicado à causa indígena na Amazônia.

Na convivência com os indígenas e conhecendo seus costumes, cultura e sofrimento, Egydio viu a necessidade de uma defesa mais efetiva e também na preparação de pessoas com a mesma sede de justiça. Por isso fundou a Operação Amazônia Nativa (OPAN) em 1969, em Cuiabá-MT. Foi fundador do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) em 1972, e atuou como secretário executivo de 1973 a 1980. Com o CIMI foi fortalecida a ação da Igreja Católica na defesa da terra, cultura e autodeterminação dos povos indígenas.

Egydio sofreu repressão pela Ditadura Militar sendo proibido pela Fundação Nacional do Índio (Funai) de entrar em qualquer área indígena. Ele também participou da fundação da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entidade que luta pelos direitos dos trabalhadores da terra.

Em 1978, Egydio se casou com a indigenista Doroti Alice Muller Schwade, com quem teve cinco filhos: Marcos Ajuri, Maurício Adu, Mayá Regina, Thiago Maiká e Luiz Augusto. Recentemente a Doroti veio a falecer. Com a Doroti, a luta pelos povos indígenas foi fortalecida. Em 1980 se mudaram para Itacoatiara, e apesar de estarem proibidos de entrarem em áreas indígenas, eles iniciaram levantamentos da realidade do povo Waimiri-Atroari. Criou o Movimento de Apoio a Resistência Waimiri-Atroari e, ainda em 1980, denunciou no 4º Tribunal Russel de Rotterdam na Holanda o genocídio dos povos indígenas no Brasil.

Em 1985, com o fim da Ditadura Militar, Egydio e Doroti participaram de um grupo de estudos do governo sobre os Waimiri-Atroari. Começaram o primeiro programa de alfabetização desse povo, onde o recurso pedagógico usado foram os desenhos. Os desenhos dos jovens indígenas foram mostrando também a violência sofrida pelo povo na época da construção da estrada BR-174, pelos militares. Como incomodou, a Funai retirou compulsoriamente o casal.

Assim, Egydio e sua família se estabeleceram em Presidente Figueiredo e em 1992 criaram a Casa da Cultura Urubuí, que mantém o único arquivo de etno-história da região, com a memória do povo Waimiri-Atroari, disponível para pesquisas.

Egydio, também se dedicou a agricultura familiar, ministrando cursos em apicultura e agroecologia a representantes de mais de 30 povos indígenas. Produz mel e vende na sua casa, ponto de parada dos que visitam o município.

Recentemente, Egydio aceitou coordenar o Comitê Estadual da Verdade, Memória e Justiça do Amazonas, que procurou ouvir os relatos de perseguidos pela Ditadura Militar e, através do comitê, pôde também levar à Comissão Nacional da Verdade, o massacre contra o povo Waimiri Atroari pelos militares durante as obras da BR-174, que culminou na publicação de um livro com todos os relatos.

Egydio foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores na década de 1980 no Amazonas, lutando por uma alternativa política para o Estado. Foi candidato a presidente do PT, em 1988 candidato a prefeito, e em 1990 a deputado federal. Em 1996, indignado com as fraudes eleitorais no município de Presidente Figueiredo, protestou queimando o seu título em praça pública.

A jornalista Ivânia Vieira lembra que o pesquisador e médico Marcus Barros dizia que o Amazonas da resistência deveria erguer uma estátua em homenagem ao Egydio pela importância do trabalho em prol do povo do Estado. Para dom Sérgio Castriani, Egydio “é uma daquelas figuras que inspiram, desafiam, mostram caminhos, exigem coerência e conversão. Cidadão no sentido pleno e também homem de fé, coerente até o fim, exuberante como as grandes árvores amazônicas que depois de anos e anos conservam a vitalidade e a fertilidade”.

Egydio recebeu o título de cidadão no dia que completou 80 anos de vida, 52 dedicados aos povos da Amazônia. Parabéns, saúde e longa vida!

1 Comentário on "Egydio Schwade, o amazonense"

  1. Parabéns, pela matéria. Egydio merece todas as honrarias possíveis. Seus filhos também seguem seus passos.

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