Com pornô independente, atriz Mila Spook é a favorita ao Prêmio Sexy Hot

Mila Spook muda padrão de filmes pornôs nacionais e é favorita ao maior prêmio do gênero no País (Foto: Instagram/Reprodução)

Mila Spook muda padrão de filmes pornôs nacionais e é favorita ao maior prêmio do gênero no País (Foto: Instagram/Reprodução)

Por Márcia Soman/Da Folhapress

SÃO PAULO-SP – A atriz pornô Mila Spook, 29, estava cansada da fórmula curta e grossa dos filmes eróticos brasileiros e decidiu virar independente. Ela escreveu, atuou, dirigiu e financiou a obra ‘(Des)conectados’, lançado no final do ano passado.

Nesta terça-feira, 9, ela será uma das duas primeiras mulheres a concorrer ao título de melhor direção no Prêmio Sexy Hot, considerado o Oscar do pornô. A obra rendeu-lhe ainda outras sete indicações, entre elas melhor atriz homo feminina e melhor filme hétero. “Muitos riram de mim quando eu disse que ia ser independente. Muitos acham que as meninas não são capazes de criar seu próprio conteúdo”, avalia Spook, nome artístico da gaúcha Camila Severo, 29. Ela concorre ao prêmio com Mayara Medeiros, veterana do setor, e com quem atuou nos sets de filmagem.

Para Spook, a direção feminina traz uma nova referência para a produção pornográfica brasileira. Saem os filmes com poucas falas e foco quase exclusivo na penetração e entram roteiros mais romantizados, em que se destaca a sedução da mulher, as preliminares e há maior atenção a itens como figurino, cenário e iluminação. “O homem na direção só quer saber se o ângulo da penetração está bom, se vai aparecer direito na câmera. De resto, eles não estão nem aí. A direção feita por uma mulher tem o cuidado da produção, de enfatizar a preliminar e o prazer feminino”, explica a atriz.

Ela cita, como exemplo, sua primeira cena em um filme pornô heterossexual: ela, vestida de enfermeira, transando no chão, no canto de uma sala, com o colega de cena, sem nenhum móvel ao redor. Já em ‘(Des)conectados’, Spook fez questão de ressaltar a conquista.

O filme, de temática nerd conforme explica a própria diretora, começa com o protagonista Titto Gómez trazendo café na cama para a namorada, interpretada pela própria Spook. Intercala, em seguida, cenas de sexo entre os dois, entre Spook e a vizinha, entre os três e partidas de Mortal Kombat no videogame. Filmado na casa de Spook, o filme custou R$ 4.500. No ano passado, ela o vendeu para a Sexy Hot. “O filme mostra todo esse carinho com a mulher. Queria mostrar o casal de verdade, passar bastante amor, uma coisa real”.

Segundo Spook, cabe a essa geração feminina na direção do pornô brasileiro reeducar o homem no sexo e mostrar que a penetração não é suficiente para fazer uma mulher gozar. “Por isso precisa haver preliminar no filme ou uma cena de sexo oral que dura 15 minutos e não 5. Podemos ficar uma hora só no esquenta e meia hora de penetração”.

A psicóloga e educadora sexual Tatiana Presser, 45, uma das juradas do Sexy Hot, discorda. Para ela, filmes pornôs são entretenimento e não devem ser assistidos como guia do que fazer na relação sexual. “Essa confusão leva as pessoas à má educação sexual. Minha bandeira é tentar separar as duas coisas. Vamos ver o filminho para esquentar a relação, mas não usar como referência”.

Presser, contudo, também vê o crescimento de um segmento do pornô brasileiro “menos canastrão”, mais soft e com roteiro mais bem desenvolvido. “É uma sensibilidade diferente, algo mais sutil e sedutor que é mais excitante não só para as mulheres mas para os homens também”, descreve.

A psicóloga conta que baixou a nota de um dos filmes que concorrem ao prêmio pelo roteiro fraco, que não valoriza o prazer feminino. “O filme trazia um casal heterossexual e o homem dizia para a mulher que queria uma transa a três. A mulher então aceitava e dizia algo do estilo: ‘se é isso que você que’. Isso é errado, a mulher tem que estar a fim”.

Para a autora do livro ‘Vem Transar Comigo’ (Ed. Bicicleta Amarela, 272 págs., R$ 27,90), a fórmula focada no sexo explícito e no desejo masculino resiste no mercado pornô brasileiro por ser mais fácil. “Como o público maior desse tipo de filme é masculino, o sexo mais explícito funciona”, diz Presser. Ela diz, contudo, ser otimista. “Estamos indo para o lado certo. O Brasil tem muito potencial, é apenas uma questão de dar mais oportunidade para as mulheres”.

Emmanuelle

A escolha de Mila Spook pela carreira no cinema pornô foi natural, conta. Seu interesse pelos filmes eróticos começou cedo, aos 11 anos, quando acordava de madrugada para assistir aos clássicos de Emmanuelle, pornô soft francês exibido pela Band nos anos 1990 e 2000.

Aos 18, virou modelo de ensaios nus e sensuais. Há quatro anos, saiu de Alegreto, cidade gaúcha a apenas 50 km da fronteira argentina, para São Paulo, onde participou em duas edições da Casa das Brasileirinhas (em 2014 e 2016), reality show com atrizes pornôs, e entrou para o elenco da produtora Xplastic, com quem concorre em cinco categorias nos prêmios Sexy Hot. “Sempre foi tudo muito natural. Fora das câmeras, eu sou muito tímida. Mas na frente delas mudo totalmente. Realmente encaro um personagem, me transformo”.

Como Spook, a atriz protagonizou dezenas de filmes e cenas de sexo com homens e mulheres. Ela aceita qualquer tipo de cena, desde que lhe dê prazer. Seu único veto é o sexo anal. “Não vou fazer nada que me deixe desconfortável. Não faço anal, devo ser a única atriz pornô do Brasil a recusar esse tipo de cena, porque não sinto prazer. Se não sinto prazer com uma lambidinha, não vou sentir com uma penetração”.

A decisão já lhe causou embates com alguns produtores de conteúdo pornô, que a chamaram de ‘fresca e nojenta’. Ela atribui o rótulo negativo à pressão típica da indústria. “As próprias atrizes se pressionam a fazer de tudo para se destacar. Quanto mais ela fizer, mais se destaca e cresce no meio”. Spook revela ainda não gostar de homens que cospem no corpo da mulher. “É um fetiche masculino, mas não gosto e não quero ter isso nos meus filmes”.

Ela conta que hoje leva uma rotina mais tranquila. Superou a fase de longas noites na balada, está solteira e gosta de passar o tempo livre na cama -sem companhia. “As pessoas acham que nossa vida é uma loucura. Na verdade, eu não bebo e não vou à balada há muito tempo. Meu programa favorito é ficar na cama comendo hambúrguer, vendo Netflix ou jogando videogame”.

Sobre os namoros, Spook diz que o relacionamento com os fãs desgastou seu interesse nos homens. “Recebo mensagens absurdas dos homens, por isso decidi não me relacionar tanto. Agora foco meu prazer nos filmes e nos meus vibradores”. Filmes dos colegas, vale ressaltar, já que acha estranho se ver na pele de Mila Spook.

Segundo ela, o estereótipo da atriz pornô como a mulher que não tinha outra opção de emprego na vida está cada vez mais longe da realidade. “São profissionais formadas, inteligentes e que escolheram o pornô porque realmente gostam disso. No Brasil, ver pornografia ainda é vergonhoso e, por isso, somos tratadas como vagabundas ou a escória da sociedade”.

Os planos da diretora novata incluem ao menos dois novos filmes neste ano, também em parceria com a Sexy Hot. Enquanto não saem do papel, Spook trabalha no site Camera Privê, fazendo shows eróticos via webcam, além de produzir filmes para a Xplastic.

Para Spook, a criação do Prêmio Sexy Hot, em sua quinta edição, ajudou a mostrar o lado mais profissional do cinema pornô nacional. A 1.500 km da capital paulista, a avó materna de Spook, Vera, 62, é quem torce mais ansiosamente pelo prêmio. Ela conversa com a neta todos os dias pelo telefone.

“Minha avó me criou de uma maneira muito aberta. Nunca escondi nada dela. Ela sempre diz que se não estou roubando, não estou matando nem sacaneando ninguém, tenho que fazer o que me faz feliz”, diz Spook, acrescentando, contudo, nunca ter mostrado um de seus filmes à avó.
O Prêmio Sexy Hot acontece nesta terça-feira, às 21h30, em São Paulo. O cantor Mr. Catra será o homenageado desta edição, que será transmitida ao vivo pelo canal do Sexy Hot no YouTube.

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