Com discurso de isenção, Grupo Globo põe cabresto em jornalistas

jornalista impedido de falar

O jornalista deve ser privado de emitir opinião por trabalhar em uma empresa de comunicação? (Foto: Reprodução)

MANAUS – Neste domingo, 1°, o presidente do Conselho Editorial do Grupo Globo, João Roberto Marinho, divulgou uma carta em que orienta os jornalistas sobre “novas diretrizes” para o uso das redes sociais. A carta apresenta um novo capítulo aos princípios editoriais do grupo de comunicação.

“Como o jornalista deve proceder diante das fontes, do público, dos colegas, do veículo para o qual trabalha e das redes sociais” é um compêndio que, na prática, coloca um cabresto nos profissionais do jornalismo. E por que o Grupo Globo faz isso? Para tentar impedir manifestações como a do jornalista Chico Pinheiro, que, por ocasião da prisão de Lula, enviou mensagem de voz em uma rede social e a mesma vazou e “viralizou” nas redes. Nela Chico Pinheiro criticava a prisão do ex-presidente da república.

O discuso de João Roberto Marinho está fundado no princípio da isenção. Para ele, manifestações como a de Chico Pinheiro podem manchar a reputação do grupo ou dos veículos nos quais o jornalista trabalha. Com base nesse princípio, o Grupo Globo proíbe qualquer manifestação política em qualquer rede social, em grupos ou no perfil pessoal dos jornalistas. Quem infringir as regras poderá ser levado ao Conselho Editorial, que decidirá o futuro do profissional.

Se o argumento fosse outro, daria para engolir, mas o Grupo Globo falar de isenção soa falso. João Roberto Marinho diz em sua carta que “Essas recomendações sobre como devemos nos comportar nas redes não têm nada de idiossincrático ou exclusivo” e que já vem sendo adotadas por “prestigiados veículos jornalísticos do mundo, como New York Times e BBC”.

Só para lembrar o presidente do Conselho Editorial do Grupo Globo, o New York Times declara apoio a candidato a presidente nos Estados Unidos, mas nas não faz molecagem no conteúdo editoral reservado à reportagem, como fez o Jornal Nacional em 1989 com a edição do debate entre Lula e Collor à véspera da eleição.

O Grupo Globo, o Grupo Estado, o Grupo Civita (que edita a revista Veja) não têm nada de isento em seu conteúdo editorial. Além de não ter isenção editorial no conteúdo noticioso, ainda alimentam um corpo de jornalistas de opinião para dizer aquilo que os donos não têm coragem de dizer. Esses cães de guarda ladram apenas contra quem seus donos mandam, não há qualquer isenção. Tanto é assim que vemos um mesmo cão ladrar em Ré maior pela manhã e em Mi menor à noite.

Isenção não tem relação com a opinião pessoal do jornalista; tem a ver com a linha editorial adotada pela empresa de comunicação. E emitir opinião política não fere a reputação da empresa como fere uma edição tendenciosa, uma pauta direcionada.

João Roberto Marinho cita um exemplo dos jornalistas de economia que “se privam da liberdade de aplicar em papéis de empresas específicas para que jamais levantem a suspeita no público de que determinada notícia sobre esta ou aquela empresa tem por trás um interesse pessoal”. É louvável que ajam assim, mas melhor seria para a sociedade que os fatos econômicos fossem tratados com isenção.

Na imprensa brasileira, incluindo o Grupo Globo, a cobertura jornalistica “endeusa” o “mercado” e não faz qualquer crítica contra as corporações responsáveis pela sangria do dinheiro público. As opiniões buscadas nas reportagens são sempre as dos “deuses do mercado”; não se vê qualquer contraponto. Isso seria isenção? De forma alguma.

Portanto, não nos iludamos. Esse tipo de regras – que devem ser adotadas por outros veículos de comunicação brasileiros ou outros grupos de comunicação – não passa de uma forma de silenciar as vozes destoantes que ousaram aparecer nesse universo dominado pelo “mercado” e que tem como porta-vozes os grandes grupos de comunicação.

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