Cidade surreal

Foi a Manaus que encontrei na entrevista do prefeito Arthur Virgílio Neto concedida ao site BNC. Cerca de 1 hora e 30 minutos, haja paciência para aguentar tanto tempo desperdiçado, em que pese o esforço do jornalista de talento Neuton Corrêa. Bem, ossos do ofício, quem entra na chuva sempre se molha, e depois de certa idade tudo não se torna assim tão pesado.

Na cidade vai tudo muito bem obrigado. Segundo o prefeito, como no velho poema do gênio de Fernando Pessoa, somos campeões em tudo. Temos, nas palavras do alcaide, o melhor sistema previdenciário do país, o melhor ajuste fiscal e a melhor atuação sob todos os aspectos em matéria de responsabilidade fiscal. Desse modo foi possível pagar o funcionalismo em dia e fazer a cidade funcionar. Também por obra e graça do prefeito, Manaus foi elevada à categoria “A”, na avaliação para concessão de créditos do Banco do Brasil, inserindo-se na elite dentre as capitais brasileiras. Nunca fora m gerados tantos empregos no Município como sob sua gestão, apesar da crise.

Construiu, fazendo jus ao apelido de “prefeito tatu”, verdadeiras cidades subterrâneas – as palavras são dele, inaugurando sistema de drenagem que nenhum de seus antecessores foi capaz de realizar. Sem exceção, baixou o cacete em todos, desde Pedro Teixeira. A cidade agora deixa Paris e todo o Circuito Elizabeth Arden no chinelo, uma nova e fantástica fonte de atração turística – As Galerias Subterrâneas de Manaus. Não teve o menor constrangimento em apresentar-se com larga projeção nacional, no Congresso e fora dele, antes e durante o governo Fernando Henrique Cardoso, espécie de n ovo condestável da República.

O filho e a mulher nomeados secretários ou equivalentes no Município, nada além, representam tão somente uma homenagem aos seus riquíssimos currículos. O primeiro, fruto do exercício de mandatos que somam 20 anos, um dos mais eminentes parlamentares da história do Estado; e a segunda, arquiteta e urbanista de alto coturno, uma vida dedicada aos menores desvalidos, uma alentada experiência profissional posta à disposição dos manauenses. Ainda falam em nepotismo. Que coisa, hein! Coitadinhos, como são injustas e injuriosas as críticas que lhes são dirigidas, ainda que o primeiro n ão dê as caras com muita frequência, enquanto a segunda não dá nunca uma palavra, como dois de paus, velho provérbio muito ao gosto de minha velha mãe.

Como pontos negativos, arre, até que enfim surgiram na entrevista, embora timidamente: a possibilidade de “faltar fôlego financeiro”, “o planejamento de muitas obras e a realização de poucas” e as consequentes “noites mal dormidas”. Não faltou o inverno mais rigoroso de todos os tempos e chuvas torrenciais, raiz e causa dos maiores problemas do prefeito, não obstante, enfrentados com determinação e galhardia, a fim de vencer a buraqueira e as crateras a céu aberto que tomam conta da cidade. Nenhuma referência ao trânsito ou projetos de mobilidade urbana que fluem maravilhosos, certamen te por falta de tempo e não porque inexistem.

O portal G1 do grupo Globo realizou levantamento sobre as promessas do prefeito em campanha e sobre o que cumpriu nestes longos anos no comando da Prefeitura. É impressionante, vale a pena conferir em http://especiais.g1.globo.com/amazonas/2017/as-promessas-de-arthur/#!/1-ano

De um salto, como se fosse capaz de saltar sobre sua própria administração, vem na entrevista a candidatura a presidente e a denúncia sobre a existência de “patotas” no PSDB nacional. Patotas que podem existir nas hostes do tucanato em todo o Brasil, com exceção do Amazonas, onde o partido é permanentemente oxigenado pela ascensão de novas e promissoras lideranças, desde sua criação. Chegou a insinuar-se como “outsider”, no universo da política, sem nenhuma cerimônia. Como ninguém, a nível nacional, desce a maiores considerações sobre as pretens&ot ilde;es do prefeito, para não dizer nenhuma, fica-se por aí, por imposição dos fatos.

Em relação às próximas eleições no Estado, o prefeito anunciou um candidato, mas sem revelar o felizardo e eleito por “sua excelência”. Disse que haveria grande renovação no quadro local e ficou se coçando, doido para revelar o nome. De qualquer sorte, ofereceu indicações de que o escolhido atualmente não figuraria nem com 0% nas pesquisas, aspecto importante, porquanto afasta da seleção qualquer nome com atuação política no Estado. Mas, ainda assim, seria eleito no primeiro turno, como assegura o prefeito, disposto a apostar qualquer importância e com quem quer que seja na vitória de seu candidato, logo de saída, em primeiro turno.

Evidente que o recado, a quem interessar possa, é dado de forma oblíqua e que por isso mesmo nele ninguém acredita. O discurso e seu autor já são bem conhecidos, embora continue fazendo o maior estardalhaço. Uma notícia final: assevera que concluirá o mandato de prefeito e encerrará a vida pública. Vamos ver.

Olha, seria trágico se não fosse cômico. Vivemos numa cidade surreal. De real, a paixão do prefeito por sua nova mulher, como demonstram os acontecimentos e as inúmeras citações feitas a seu nome, espécie de “nihil obstat” ou aval a tudo o que disse ao longo da entrevista. De qualquer sorte, com os cronistas sociais, destas e doutras plagas, registre-se que o amor é lindo. Bravo, prefeito Arthur Virgílio Neto. Ajuricaba, o índio, te saúda. Superadas as prévias no PSDB, o alcaide agora se prepara para mais um descansinho. Ele merece.

paulofigueiredo@uol.com.br

Seja o primeiro a comentar on "Cidade surreal"

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.