Bioeconomia: a trilha do Eldorado

Há um ano, numa mobilização intensa e pioneira na história da Bioeconomia do Amazonas, foi criada a ABITA (pronuncia-se Ábita) para remeter ao habitat florestal. A Associação de Bioeconomia e Inovação Tecnológica da Amazônia, com CNPJ e tudo, é formada em sua composição por cientistas, alguns com bagagem de muitas décadas em prospecção do saber amazônico, empresários, profissionais liberais e dirigentes de entidades de classe ligadas à indústria, agricultura, comércio e serviços, com os mesmos propósitos de alavancar negócios e oportunidades na região.

Cabe lembrar que aqui viceja mais de 20% da biodiversidade do planeta, a maior e mais conservada floresta tropical, e onde vagueia uma indagação secular: por que o setor público do Brasil não consegue administrar com inteligência e competência este patrimônio monumental transformando-o em prosperidade social nos rigores da sustentabilidade já em uso como paradigma no Polo Industrial de Manaus?

A criação da ABITA implicou a possibilidade de concorrer um edital do Ministério do Desenvolvimento para escolher uma entidade capaz de fazer o que o CBA – Centro de Biotecnologia da Amazônia – não fez desde sua instalação no início deste milênio. Ou seja, instalar-se como pessoa jurídica.  Este imbróglio institucional, sem CNPJ, hoje apropriado pelo InMetro, serviu para demonstrar que o poder público não tem competência gerencial para dirigir negócios. E isso se agrava mais ainda quando se trata de gestão a distância, contaminada pelo viés político. Atualmente, entregue à ninguém, os laboratórios do CBA descem a ladeira do sucateamento e a iniciativa se desconstrói em descrédito.

Muitos dos integrantes da ABITA já desembarcaram na Fazenda Agropecuária Aruanã, em Itacoatiara, onde os Vergueiro, há 50 anos, diante das dificuldades da Pecuária escolheram a Domesticação da Castanha do Pará, da Amazônia, do Brasil, a Bertholethia excelsa. Os cientistas já identificaram ali uma estação de negócios com a inovação tecnológica em diversas aplicações e espécies, pois alem das castanheiras, plantadas em escala de 1,5 milhão de indivíduos, ali também vicejam cumaru, copaíba, pupunha, em plantios intensivos.

Embrapa, Inpa, Ufam USP, Esalq, Ufam, Ifam, UEA, Unicamp, entre outras instituições do País e do exterior, deram suporte ao empreendimento e já levaram adiante mais de duas dezenas de teses de pós-graduação. Recentemente, pesquisadores pagos pela Suframa, em sua última tentativa de credenciar o CBA, descobriram nos resíduos da castanheira plantada biomolécula de alto valor para a indústria de química fina.

Entre os projetos da ABITA está justamente a retomada da Rede Castanha, com suas 25 linhas de pesquisa voltada para o mercado. O desafio é elaborar planos de negócios, identificar mercados internos e externos, mapear alternativas de inovação e oferecer protótipos de produtos, extratos, insumos, protocolos específicos das resinas, óleos, taninos, polifenóis, enfim, o cardápio infindo das matérias primas da floresta. As instituições públicas serão incentivadas a promover pesquisa básica, já disponíveis em alentados acervos e coleções.

O foco da Associação é respaldar startups de Bioeconomia, a multidão de pequenos empreendedores para os quais o poder público não conseguir oferecer serviços. Os laboratórios do CBA, pagos com recursos da Indústria, não podem ser colocados para incentivar esses empresários da floresta que precisam mensurar e protocolizar seus produtos. A entidade quer ser um elo entre a pesquisa e mercado, nem que seja preciso recorrer à justiça para colocar os recursos do contribuinte a serviço da sociedade.

Promover a Bioeconomia como fator de diversificação da base industrial da Indústria do Amazonas, constituída sobre os pilares da sustentabilidade. Nesse contexto, outra vertente de propósitos da Associação é a ampliação das parcerias com entidades locais, nacionais e do exterior, abrindo espaço para atrair investimentos, disponibilizar insumos e soluções para empreendedores interessados em se instalar na região, ávidos pelo Eldorado Verde de nossa biodiversidade, onde economia e ecologia andam e devem andar, necessariamente, interligadas.

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