Alianças no Amazonas refletem apenas busca pelo poder, dizem analistas

Coligações de Eduardo Braga e de Amazonino Mendes surpreenderam o eleitorado na semana passada (Fotos: Divulgação)

Por Michelle Freitas, da Redação

MANAUS – Adversários políticos hostis em uma eleição e aliados partidários em outra é um comportamento padrão na política brasileira, afirmam analistas políticos, que definem as alianças para a eleição suplementar no Amazonas, no dia 6 de agosto deste ano, como ‘incoerentes’ e refletem apenas uma busca pelo poder do governo do Estado.

“Essas alianças, assim meio que sem sentindo em algum ponto do caminho, costumam acontecer. Tanto é que aconteceu entre o prefeito Arthur Neto e o ex-governador Amazonino Mendes no mesmo momento em que estamos vendo o Eduardo Braga se aliar ao Marcelo Ramos e a Rebeca Garcia sair como candidata, quando na verdade era do grupo do Eduardo Braga. Estamos vendo o Arthur apoiar o Amazonino e indicar o vice em uma composição na qual tem o senador Omar Aziz como patrono dessa candidatura”, diz o presidente do Instituto Action de Pesquisas, Afrânio Soares. “Não dá pra dizer se isso representa que os políticos não tem uma convicção, digamos assim fraternal, com seus aliados, mas eu acho que isso é coisa da política mesmo”, disse.

Aposta de risco

Afrânio Soares considera que alianças entre políticos que antes eram adversários é uma “aposta de risco”, independente de qual seja a eleição. “Toda aliança não deixa de ser uma aposta de risco, mas também existe a medida calculada que, com certeza, parte dessas alianças foram estudadas antes, seja com pesquisa, seja com opinião, ou com a intuição de aliados políticos. Então, não é algo feito assim completamente ao sabor de uma conveniência”, analisou. “Devem ter sido estudados nomes que poderiam somar, agregar, ou atrapalhar menos, digamos assim, no caso de uma união”.

Para o Afrânio, candidaturas também podem ser uma forma de protesto. “Talvez a Rebeca (Garcia-PP) tenha sido isso também, de marcar algum tipo de insatisfação saindo candidata para ter condições de até ocupar o lugar deixado pelo Marcelo Ramos”, comentou.

Afrânio diz que o eleitor, em um primeiro momento, não reflete sobre esse tipo de aliança política. “Em algum momento, o pessoal vai querer entender isso e eles (candidatos) vão ter que ser eficientes nas explicações se quiserem ganhar. Também teve isso na união do Arthur Neto com o Marcos Rotta, que também havia semanas antes criticado o Arthur, inclusive em alguns portais, e tinha gravações. Assim como teve o Marcelo contra o Eduardo, fazendo críticas veementes na eleição de 2016, e depois as críticas foram absorvidas de certa forma. Eu creio que haverá crítica para todos os lados, não só da união do Eduardo com o Marcelo, mas também do Arthur com o Amazonino, do Davi Almeida com a Rebeca, todas essas uniões vão ter que saber se explicar muito bem”, disse o analista.

Formação partidária

Para o cientista político Carlos Santiago, esse tipo de conduta faz parte da formação partidária. “Se partimos do princípio que a maioria absoluta dos partidos políticos não representa absolutamente nada e são criados apenas para fazer negócio, formar grupos, não existe nenhuma incoerência quando eles fazem esse tipo de aliança. Eles estão ai na política para fazer isso mesmo”, disse.

Santiago diz que a sociedade nem deveria de assustar com isso. “O exemplo clássico é que no Amazonas você tem partidos como o PSB, PSDB, PP e muitos outros que são controlados por família, e os interesses giram em torno dessas famílias: o PSB, do ex-prefeito Serafim Correa com o filho, Marcelo. A Rebeca com o pai dela (Francisco Garcia) tem o PP, e por ai vai”, citou.

Conforme Santiago, nas novas alianças não existe um contraditório ideológico, “o que existe na verdade é apenas uma ação para as eleições, eles apenas estão promovendo as coligações”. “Eles estão se organizando em torno de coligação que é algo momentâneo, algo de tempo curto, mas eles são muitos parecidos”, analisou.

Personalismo e visão crítica

Para Afrânio, o personalismo ainda é decisivo para o eleitor na escolha  de seus candidatos. “O eleitor não está vendo bem a questão das motivações das alianças, ele está vendo as pessoas, ele gosta de determinado candidato. Vamos imaginar o Marcelo Ramos. Os eleitores do Marcelo gostam dele. No  primeiro momento, o eleitor se vê decepcionado pela união dele com o Eduardo Braga, muito criticado pelo próprio Marcelo. Na minha opinião, o que o eleitor vai olhar primeiro é o que o Marcelo vai justificar, ele vai ter que dizer porque se aliou, se ele gosta do Braga. Aí ele vai ouvir o que o Marcelo tem a dizer e vai avaliar se ele foi coerente nas suas convicções”.

Carlos Santiago diz que o eleitor já percebe os interesses de grupos políticos. “Há uma percepção na sociedade de apatia à política brasileira, a ponto de fomentar pessoas que não têm, às vezes, condição intelectual alguma para administrar esse País, como é o caso do Bolsonaro (Jair Bolsonaro, deputado federal), que hoje é colocado como referência por muitos segmentos da sociedade. Esse é o lado negativo dessa apatia da política. A preocupação é o lado cético, quando você está cético com a vida política brasileira, você começa a defender outras formas de ser partidário, às vezes até com a volta de ditadura, volta de regime de exceção, o que é extremamente preocupante”, comenta.

O cientista político diz que o momento é de negação da política diante dos escândalos e de coligações que são feitas de forma oportunistas, de interesse de pequenos grupos sem interesse social. “A sociedade percebe isso, mas como vive no regime democrático, acaba se vendo obrigada a votar numa das opções; no fundo, com um pouco de esperança de mudança”, diz Santiago.

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