129 anos de abolição incompleta no Brasil

Dia 13 de maio  é a data da abolição da escravidão no Brasil, ocorrida há 129 anos, em 1888. Como se sabe, a abolição é um fato histórico que ainda hoje gera muitos debates sobre os reflexos da escravidão, identidade nacional e racial e cidadania no Brasil, do período colonial aos dias atuais.

A escravidão no Brasil aprisionou mais de 4 milhões de negros, mas quando foi extinta em 1888, “os cativos no país não somavam mais de 700 mil almas entre milhões de afro brasileiros livres”, conta a historiadora Hebe Maria Mattos. Talvez por isso, intelectuais negros e brancos considerem um exagero o título dado à Princesa Isabel de “a redentora de uma raça”.

Aproveitamos também para saudar a atuação no Movimento Abolicionista de figuras importantes neste processo, como o trio afrodescendente formado pelo engenheiro André Rebouças, o jornalista José do Patrocínio e o advogado Luís Gama, que fez carreira de político de prestígio durante a Monarquia.

A abolição deu aos negros uma liberdade negativa que, aquela que você fica agarrado ao não. Alguma coisa que prende você se libera do jugo, mas a sua liberdade é dependente de algo que é negativo. O antônimo disso seria a liberdade positiva, aquela que você pode agir a partir da sua potencia.

Não houve liberdade positiva, porque muito antes da abolição foi feita a Lei de Terras para quem tinha dinheiro. Para o negro dito liberto não havia possibilidade de um “agir próprio” que seria cultivar, seria ser proprietário rural que era o horizonte da produção naquela época.

Então, o afrodescendente é lançado na vida brasileira sem integrar o pacto das classes dirigentes. Ele ficou como um cidadão de segunda classe. A ele foram negadas as possibilidades de produção. Ele ficou como um trabalhador de segunda classe. E a abolição foi apenas jurídica. Ela não foi social, não foi econômica e não foi existencial. A forma social escravagista continuou. Ela não foi abolida.

É a maneira como as pessoas experimentam a sociedade tanto externamente como internamente, a maneira como se vive e nessa maneira de viver pós abolição o negro continuou escravo na relação com os brancos. Não é que a abolição tenha sido uma farsa, mas ela foi incompleta, parcial, uma pequena coisa diante da forma social escravista que era interiorizada e, hoje essa forma continua.

As tentativas que fazemos para mexer nessa forma tem implicação social porque significa mexer nos locais de mando e de submissão das pessoas. No campo pré abolição, o negro era excluído e martirizado. No campo pós abolição, ele é excluído e martirizado moralmente. E esse martírio moral vem do fato dele não ser reconhecido como cidadão igual.

O Império deu ao Brasil estado e nação, mas o estado-nação não conseguiu formar no Brasil povo. O povo, portanto, ficou como uma incógnita. Quem é o povo brasileiro o que é povo no Brasil, esse problema de saber qual a singularidade do povo brasileiro está nos livros dos grandes escritores como Machado, Lima Barreto, Jorge Amado, Graciliano Ramos.

Também esteve nas artes, no Modernismo brasileiro, e está no cinema com Glauber. O filme “Terra em Transe” debate esta questão. Ainda nos momentos de forte reflexão de grandes sambistas como Geraldo Pereira e Noel e de representantes da MPB, como Chico, Gil e Caetano. Essa questão nunca foi resolvida e não será solucionada enquanto o negro permanecer excluído.

Essa é uma questão para ser resolvida com políticas de Ação Afirmativa. Vale destacar a importância das politicas de ação afirmativa que tiveram força nos governos Lula e Dilma. Socialmente, essa foi a coisa mais importante do governo deles. Ao invés do discurso da colonização se começa a construir o discurso da “colorização”. Toda a politica tem no fundo uma estética. A questão da cor é também uma questão de estética.

O papel da imprensa sobre o movimento abolicionista e da mídia de maneira geral, nos dias atuais, quando aborda esse fato histórico e as suas consequências para a população negra e o País. Com exceção de algumas figuras importantes dentro dos jornais, a imprensa é veiculadora de estereótipos raciais. Portanto, ela é preservadora do racismo.

Mãe Zulmira, Salve as mães do Morro.

Mãe Zulmira é para nós resumo de força espiritual, cultura, bondade, sabedoria, energia positiva, poesia, tema de alegria, lembrança feliz, beleza negra, irmã querida, mulher ecumênica, fonte de inspiração, senhora do Morro, Rainha da Liberdade, símbolo de fé, lição de vida. Sido iniciada no culto aos ancestrais pelas mãos de Joana Gama. Tomou-se a Ialorixá Mãe Zulmira do Terreiro de Gomes, a Mãe Zulmira Ialorixá do Terreiro de Santa Bárbara do Morro da Liberdade.

O Terreiro de Santa Bárbara (batuque do Morro) tem como origem africana a Casa de Mina do Maranhão e se estabeleceu no Morro da Liberdade (então chamado de Colônia Oliveira Machado) por Joana Gama que habitou uma imensa área desabitada e completamente nativa na margem oposta do Bairro de Cachoeirinha. Sucedendo Joana Gama veio a Ialorixá Quintina Nemésia de Jesus e na sequência sucessória o Babalorixá Odenato Amorim.

Mãe Zulmira, nasceu no dia 03 de setembro de 1923, em “Manaus, no Bairro de Cachoeirinha, às margens do igarapé e, ainda criança, mudou-se com a família para o local onde mais tarde viria a se chamar Morro da Liberdade e lá, tornou-se filha do Terreiro de Santa Bárbara tendo Santa Bárbara em 1959 iniciando um belo reinado que durou até 13 de maio de 2007, um domingo comemorado como o dia das mães e data de aniversario da libertação dos escravos do Brasil.

Mãe Zulmira acompanhou todo o crescimento do Morro, da Zona Sul e da cidade de Manaus, assistindo o nascimento de movimentos sociais dos mais variados matizes assim como a implantação do Polo Industrial de Manaus nos anos setenta com a consequente morte do Igarapé do Quarenta, fonte de tantas estórias bonitas e fabulosas.

Em 1989, com o Axé Mãe Preta, a Reino Unido prestou uma homenagem colossal a Mãe Zulmira. De tão magnífica, até os dias atuais o samba em sua homenagem e a lembrança daquele desfile comove a qualquer amante da cultura e do samba…

 

 

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